Cantiga dos Romeiros em folia no Auto do Templo d'Apollo, representado em 1526 na partida da infanta filha de D. Manoel, que casou com Carlos V.

Pardeos, bem andou Castella,
Pois tem Rainha tão bella.
Muito bem andou Castella
E todos os Castelhanos,
Pois tem Rainha tão bella,
Senhora de los Romanos.
Pardeos, bem andou Castella
Com toda sua Hespanha,
Pois tem Rainha tão bella,
Imperatriz d'Allemanha.
Muito bem andou Castella,
Navarra e Aragão,
Pois tem Rainha tão bella,
E Duqueza de Milão,
Pardeos, bem andou Castella
E Sicilia tambem,
Pois tem Rainha tão bella,
Conquista de Jerusalem.
Muito bem andou Castella,
E Navarra não lhe pesa,
Pois tem Rainha tão bella,
E de Frandes he Duqueza.
Pardeos bem anda Castella,
Napoles e sua fronteira,
Pois tem Rainha tão bella,
França sua prisioneira.

Obr. t, II, p. 392.{[13]}


Romance ao nascimento do infante Dom felipe, com que termina a tragi-comedia da Romagem de Aggravados, representada em Evora em 1533.

Por Maio era por Maio
Ocho dias por andar,
El Ifante Don Felipe
Nació en Evora ciudad.
Viva el Ifante, El Rey, y la Reyna,
Como las aguas del mar.
No nació en noche escura,
Ni tampoco por lunar,
Nació quando el sol decrina
Sus rayos sobre la mar.
En un dia de domingo
Domingo para notar,
Cuando las aves cantaban
Cada una su cantar.
Cuando los árboles verdes
Sus fructos quieren pintar,
Alumbró Dios á la Reina
Con su fructo natural.
Viva el Ifante, el Rey y la Reyna
Como las aguas do mar.

Obr. t. II, p. 531.{[14]}


Romance á morte de El Rei Dom Manoel.

Pranto fazem em Lisboa,
Dia de Santa Luzia,
Por El Rei Dom Manuel,
Que se finou n'esse dia.
Choram Duques, Mestres, Condes,
Cada um quem mais podia;
Os fidalgos e donzellas
Muito tristes em porfia;
Os Iffantes davam gritos,
A Iffanta se carpia;
Seus olhos maravilhosos
Fonte d'agua parecia.
Bem merecem ser escriptas
As lastimas que fazia:
«Paço tão desamparado
Derribado merecia,
Pois a sua fortaleza
Se tornou em terra fria.
Oh minha senhora madre
Rainha Dona Maria,
Quem a vós levou primeiro
Mui grande bem vos queria,
Pois que vos livrou da pena
Que passamos n'este dia.»
E outras magoas, que de tristes
Contar não mais ousaria.
O Principe dava suspiros,
Que a alma se lhe sahia;
Suas lagrimas prudentes,
Como a gran senhor cumpria:{[15]}
De dia sempre velava,
De noite nunca dormia.
A Rainha estrangeira
Já chorar o não podia:
Com rouca voz dolorosa
Estas palavras dizia:
«Oh Reina desamparada!
Qué haré sim compañia,
Pues que en esta triste vida
Sola una vida tenia!
Y pues me la llevó la muerte,
Para qué quiero la mia?
Oh sin ventura casada
Tres años no mas habia,
Quien tan presto fue viuda
Triste para que nascia;
Niña sola en tierra agena,
Huérfana sin alegria!»
Se uma vez acordava
Outras sete esmorecia;
Assi pedia a Deos morte
Como quem pede alegria,
Dizendo: «Llevenme luego,
Que esta tierra ya no es mia:
Por la mar por donde fuere
Algun peligro venia,
Que me matasse á mi sola
Salvando la compañia.»
O bom Rei em seu acordo
Deste mundo se partia:
Sua morte conhecendo
Com muita sabedoria,
Per palavras piedosas
Os sacramentos pedia;
Falando sempre com todos,
Deu sua alma a quem devia.{[16]}
Morto levam o gran Rei
Senhores de gran valia,
Dizendo uns aos outros:
Oh que triste romaria!
Que grande amigo perdemos
E que doce companhia!
Já passada a meia noite,
Tres horas antes do dia
Mettido em um ataúde
O qu'inda ha pouco regía,
O gran senhor do Oriente
Dos seus Paços se partia.
Seiscentas tochas accezas,
Escuras a quem as via;
Triste pranto até Belem
Nem passo não se esquecia.
Em terra fica enterrado,
Porque assi mandado havia,
Conhecendo que era terra
A mundanal senhoria.
Disse que os vãos thezouros
Á morta não pertencia.
Desque ficou enterrado
Cada um se despedia,
Dizendo estes versos tristes
Á gloriosa Maria. Etc.