Obr. t. III, p. 348.
Romance á aclamação de D. João 3.º
Desanove de Dezembro,
Perto era do Natal,
Na cidade de Lisboa
Mui nobre e sempre leal,
Foi levantado por Rei{[17]}
Dos reinos de Portugal
O Principe Dom João,
Principe angelical.
Sahiu n'uma faca branca,
Parecia de cristal,
Guarnecida de maneira
Que se não viu sua igual.
Opa leva roçagante,
Tudo fio d'ouro tal,
Forrada de ricas martas,
Bem parecia real;
Pelote de prata fina,
Prata mui oriental,
Barrado de pedraria
Vinha-lhe mui natural.
De perlas não fazem conta
Porque é baixo metal;
Só um collar que levava
Toda Alexandria val;
Na cabeça leva preto
Por seu padre natural;
Sahiu com lagrimas tristes
Como filho mui leal.
O seu rosto tão formoso
Que parece divinal,
Seus olhos resplandeciam
Como estrellas igual;
Os cabellos da cabeça
D'ouro eram que não d'al;
Sua boca graciosa
Com ar mui angelical,
Um semblante soberano,
Um olhar imperial.
Não foi tal contentamento
No povo todo em geral,
Como ver na Rua nova{[18]}
Ir o seu Rei natural
Com tanta graça e lindeza,
Que não parece humanal.
Os forasteiros diziam:
Mui ditoso é Portugal.
O Iffante Dom Luis
Leva o estoque Real;
O Iffante Dom Fernando,
Outro seu irmão carnal,
Ao estribo direito
A pé, não lhe estava mal,
Porque em tal solemnidade
Tudo lhe vem natural:
Todolos Grandes a pé,
Quantos ha em Portugal.
O Conde Priol levava
A bandeira principal.
Chegou assi a San Domingos,
Onde estava o Cardial:
Benzeu o mui alto Rei
De benção pontifical,
E deu logo juramento;
Jurou n'um livro missal
De fazer cumprir as leis
Como lei imperial;
Confirmou os privilegios
D'esta cidade Real.
Os povos muito contentes
De Rei tão especial,
De pequeno sempre grande,
Magnifico e liberal,
Que é virtude julgada
Dos Principes principal.
Isto tudo assi acabado,
Disseram: Arraial! Arraial!
Alli tocam as trombetas,{[19]}
Atabales outro tal:
Todos lhe beijam a mao,
Os senhores em geral.
Obr. t. III, p. 355.
Cantiga da Natal, com que remata o Auto Pastoril, representado em Evora a D. João 3.º em 1523.
Quem he a desposada?
A Virgem sagrada.
Quem é a que paria?
A Virgem Maria.
Em Bethlem, cidade
Muito pequenina,
Vi hua desposada
E Virgem parida.
Em Bethlem, cidade,
Muito pequenina,
Vi hua desposada
E Virgem parida.
Quem he a desposada?
A Virgem sagrada.
Quem he a que paria?
A Virgem Maria.
Hua pobre casa
Toda reluzia,
Os anjos cantavam,
O mundo dizia:
Quem he a desposada?
A Virgem sagrada.
Quem he a que paria?
A Virgem Maria.
Obr. t. I, p. 147.{[20]}