Duque:
Quiz senhor, nossa mofina
Que o infante Valdevinos,
Primo do forte Guarinos,
Filho da linda Hermelinda
E do grande rei Salinos,
Fosse morto á traição
Na floresta sem ventura.
A tão grande desventura
Haverá quem não procure
De vingar tal perdição?
Imperador:
É certa tam gram maldade,
Que o sobrinho do Marquez
É morto, como dizeis?{[85]}
Duque:
Pela maior falsidade,
Que nunca ninguem tal fez.
Imperador:
Este caso é desastrado:
Saibamos como passou,
E quem tão mau feito obrou;
Que, o que tal senhor matou,
Merece bem castigado.
Duque:
Saiba vossa magestade
Que dez dias pôde haver
Que o Marquez foi á cidade
De Mantua com gram vontade
Á caça, que sóe fazer.
Andando assim a caçar,
Da companhia perdido
Foi por ventura topar
Com seu sobrinho ferido,
Quasi a ponto de expirar.
Bem póde considerar
O gram pezar que teria
De se vêr sem companhia,
E morrer em tal logar
A coisa que mais queria.
Perguntando a rasão,
Sendo d'ella mui ignoto,
Disse com grande paixão,
Que o matára a traição
Vosso filho Dom Carloto.
A causa que o moveu
Dar morte tão dolorosa
A tão grande amigo seu,
Não foi outra, senhor meu,
Salvo tomar-lhe a esposa.
Matou-o á falsa fé,
Indo muito bem armado.{[86]}
Com quatro homens de pé.
Quem mata tão sem porque
Merece bem castigado.
O marquez Danes Ogeiro
Lhe manda pedir, senhor,
Justiça mui por inteiro:
Que ainda que perca herdeiro,
Elle perde successor.