Dom Beltrão:

Não deve deixar passar
Tão gram mal sem o prover,
Porque deve de cuidar,
Se seu filho nos matar,
Quem nos deve defender?
E mais lhe faço saber,
Porque esteja aparelhado,
Se justiça não fizer,
Que o Marquez tem jurado
De por armas a fazer.
O mui valente e temido
Reinaldos de Montalvão
Entre todos escolhido,
Está bem apercebido
Como geral capitão.
Dom Chrisão e Aguilante
Com o forte Dom Guarinos,
E o valente Montesinos
Primo do morto Infante,
Primo de el-rei Dom Salinos,
E o mui grande Rei Jaião,
De Dom Reinaldos cunhado,
E o esforçado Dudão,
E o gram Duque de Milão,
E Dom Richarte esforçado,
O Marquez Dom Oliveiros,
E o famoso Durandarte,{[87]}
E o infante Dom Gaifeiros,
E o mui forte Ricardo,
E outros fortes cavalleiros,
Todos tem boa vontade
De ajudar ao Marquez
Em essa necessidade;
Porque foi gram crueldade
A que vosso filho fez.
Evitae, senhor, tal damno?
Pois que sois juiz sem par,
Não vos mostreis inhumano,
Acordae-vos de Trajano,
Em a justiça guardar.
Assim que, alto, esclarecido,
Poderoso sem egual,
O que fez tão grande mal,
Bem merece ser punido
Por seu mandado imperial.
E pois, senhor, é proposta
A causa, porque viemos,
E sabeis o que queremos,
Mandae-nos dar a resposta,
Com que ao Marquez tornemos.

Imperador:

Oh poderoso senhor,
Que grande é o vosso mysterio:
Pois para meu vituperio
Me deste tal successor,
Que deshonrasse este Imperio?
Se o que dizeis é verdade,
Como creio que será,
Nunca rei na christandade,
Fez tão grande crueldade,
Como por mim se verá.
Por minha corôa juro
De cumprir e de mandar{[88]}
Tudo que digo e procuro.
Ao Marquez podeis dizer,
Que elle póde vir seguro,
E todos quantos tiver,
Venham de guerra ou de paz,
Assim como elle quizer.
E pois que justiça quer,
Com ella muito me praz.

(Entra Dom Carloto)

D. Carloto:

Bem sei, que com gram paixão
Está vossa magestade
Pela falsa informação
Que de mim, contra rasão,
Deram com gram falsidade.
Porque um filho de tal home,
E tão grande geração,
Não deve sujar seu nome
Em caso tal de traição.
Por vida de minha madre,
Que se tão grande deshonror
Não castigar com rigor
Que me será cruel padre,
Não direito julgador.

Imperador:

Não vos queiraes desculpar;
Pois que tendes tanta culpa,
Que se o mundo vos desculpa,
Eu não heide desculpar.
E por tanto mando logo,
Que estejaes posto a recado,
Até ser determinado
Por conselho de meu povo
Se sois livre ou condemnado.
Mando que sejaes levado{[89]}
Á minha gram fortaleza,
E que lá sejaes guardado
De cem homens do estado
Até saber a certeza.

D. Carloto: