Imperador:
Quem me cá mandou recado
Não foi senão com certeza.
Imperatriz:
Por tal recado, senhor,
Quereis tratar de tal sorte
Vosso filho e successor,
Que depois de vossa morte
Hade ser imperador?
Imperador:
Em eu o mandar prender
Não cuideis que o maltrato;
Mas se elle o merecer,
Eu espero de fazer
A justiça de Torquato;
Porque pae tão poderoso,
Sendo de tantos caudilho
Se não fôr tão rigoroso,
Nem elle será bom filho,
Nem será rei justiçoso.
Que agora, mal peccado!
Nenhum rei, nem julgador
Faz justiça do maior;
Mas antes é desprezado{[91]}
O pequeno com rigor.
Todo o mundo é affeição;
Julgam com rara remissa
O nobre que, sem rasão
Alguma, tem opinião
De lhe tocar a justiça...
Que conta posso eu dar
Ao Senhor dos altos céos,
Se a meu filho não julgar
Como outro qualquer dos meus?
Assim que escusado é
Buscar este intercessor;
Porque Deos de Nazareth
Não me fez tão gram senhor
Para minha alma perder.
Imperatriz:
Ai triste de mim coitada!
Para que quero viver,
Pois que sempre heide ser
Do meu filho tão penada,
Como uma triste mulher?
Pois tão triste heide ser
Por meu filho muito amado,
Nunca tomarei prazer,
Senão tristeza e cuidado.
Imperador:
Não façaes tantos extremos,
Pois dizeis que tem desculpa,
Que antes que sentença démos,
Primeiro todos veremos
Se tem culpa ou não tem culpa.
Mostrae maior soffrimento,
Que o caso é desastrado,
E i-vos a vosso aposento,
Que elle não será culpado.{[92]}