(Aqui se vae a Imperatriz, e vem a mãe, e esposa de Valdevinos)

Mãe:

Oh coração lastimado,
Mais triste que a noite escura!
Oh dolorosa tristura,
Cuidado desesperado,
E fortunosa ventura!
Oh vida da minha vida,
Alma d'este corpo meu!
Oh desditosa perdida,
Oh sem ventura nascida,
A mais que nunca nasceu!
Oh filho meu muito amado,
Minha doce companhia,
Meu prazer, minha alegria,
Minha tristeza e cuidado,
Minha sab'rosa lembrança,
Que serei eu sem vos vêr?
Filho de minha alegria,
Oh meu descanço e prazer,
Porque me deixaes viver,
Vida com tanta agonia?
Adonde vos acharei,
Consôlo de meu pezar?
Onde vos irei buscar,
Pois que perdido vos hei
Para jámais vos cobrar!
Filho d'esta alma mesquinha,
Dos meus olhos claridade,
Onde estás, minha mesinha?
Filho de minha saudade,
Meu prazer e vida minha?

Esposa:

Que é de vós meu coração,
Que é da minha liberdade,
Espelho da christandade,{[93]}
Quem vos matou sem razão
Com tão grande crueldade?
Quem vos apartou de mim,
Meu querido e meu esposo?
Oh meu prazer saudoso,
Porque me deixaes assim
Com cuidado mui penoso?
Oh minha triste saudade,
Oh meu esposo e senhor,
Minha alegria e vontade,
Escudo da christandade,
Dos tristes consolador!
Que farei pobre coitada,
Mais que nenhuma nascida?
Miseravel, angustiada,
Para que quero ter vida,
Pois minha alma é apartada?
Oh fortuna variavel,
Triste, cruel, matadora,
De prazeres roubadora,
Inimiga perduravel,
Mata-me se queres agora.

Hermelinda:

Se vossa gram magestade
Não dér castigo direito
A quem tanto mal ha feito,
Nem sustentar a verdade,
Não será juiz perfeito.
Não olhe vossa grandeza
Sua madre dolorosa,
Nem sua tanta tristeza;
Mas olhe tão gram princeza
Como esta sua esposa.

Imperador:

Faz-me tanto entristecer
Este tão gram vituperio,{[94]}
Que mais quizera perder
Juntamente meu Imperio,
Que tal meu filho fazer.
Mas se tal verdade é
Como já sou informado,
Que tal castigo lhe dê,
Que seja bem castigado.

Sybila: