Seja justiça guardada
A esta orpha sem marido,
Viuva desamparada,
Tão triste e desconsolada
Mais que quantas têm nascido.
Olhae, senhor, tão gram mal,
Como vosso filho ha feito,
E não queiraes ter respeito
Ao amor paternal,
Pois que não é por direito.

Imperador:

Senhora, não duvideis
Que eu farei o que hei jurado,
Se é verdade o que dizeis,
Porque cumpre meu estado
De fazer o que quereis:
Que mais quero ter commigo
Fama de rigoridade,
Que deixar de ter castigo
Quem commetteu tal maldade.
Para que é ser caudilho
De tanto povo e tão grado,
E Imperador chamado,
Se não julgasse meu filho
Como qualquer estragado?
Não cuidem duques, nem reis,
Que por meu herdeiro ser,
Que por isso hade viver;{[95]}
Que aquelle, que fez as Leis,
É obrigado a as manter.
Assim que, por bem querer,
Amizade nem respeito
Como agora sóem fazer,
Não hei de negar direito,
A quem direito tiver.
E bem vos podeis tornar,
Fazei certo o que dissestes,
E não tomeis tal pesar,
Porque o bem que perdestes,
Não o cobraes com chorar.

Hermelinda:

Senhor, nós outras nos pomos
Em mãos de vossa grandeza:
Olhae bem, senhor, quem somos,
E de que linhagem fomos,
Pois Deos nos deu tal nobreza.

Sybila:

Olhae os serviços dinos,
Que tanto tempo vos fez
Meu esposo Valdevinos;
Tambem seu tio Marquez,
E como foram continos.

(Aqui se vae Hermelinda e Sybila, e virá Reinaldos com uma carta, que tomaram a um Pagem de Dom Carloto)

Reinaldos:

O summo rei dos senhores,
Que morreu crucificado
Em poder dos pharizeus,
Accrescente vosso estado,
E vos livre dos traidores.