Imperador:
Mui valente e esforçado,
Reinaldos de Montalvão,{[96]}
Vós sejaes tambem chegado,
Como a sombra no verão.
Muito estou maravilhado,
Invencivel e mui forte,
De ver-vos assim armado,
Sabendo que em minha côrte,
Nunca fostes mal tratado.
Reinaldos:
Senhor, não seja espantado
De vêr-me assim d'esta sorte,
Porque com todo o cuidado,
Ganalão vosso cunhado
Sempre me procura a morte.
Bem sabeis que sem rasão
Com vontade mui malina,
Fez matar com gram traição,
A Tiranes, e Erocina,
E ao feito Salião,
E a mim já quiz matar
Muitas vezes com maldade;
E para mais me danar,
Fez á sua magestade,
Mil vezes me desterrar.
O grande mal que me quer
De todo o mundo é sabido,
E por isso quiz trazer
Armas para offender,
Antes que ser offendido.
Mas deixando isto assim
Guardado p'ra seu logar
Onde se hade vingar,
Vos quero, senhor, contar:
Notorio a todo o christão
É o pesar lastimeiro
Do Marquez Danes Ogeiro,
Que tem com justa rasão{[97]}
Pela morte do herdeiro.
N'esta nobre côrte estão
Muitos mui nobres senhores,
Que sabem que Dom Beltrão
E o nobre Duque Amão
Foram seus embaixadores:
Tambem este é sabedor
Das respostas que lhe déstes,
E mais de como prendestes
Vosso filho successor.
Do qual está mui contente
De tel-o posto em prisão,
E tem mui grande rasão,
Porque na carta presente
Á qual fez da sua mão,
Confessa toda a traição,
E um pagem a levava
Para o Conde Dom Roldão,
Que na cidade de Boava
Faz a sua habitação.
E como não ha falsia,
Que se possa esconder,
Tinha o Marquez espia,
Porque queria saber
O que Dom Roldão faria.
Esse pagem embuçado,
Sem suspeita, sem revez
Ia mui determinado,
Onde logo foi tomado,
E levado ao Marquez.
Lendo a carta Dom Guarinos,
N'ella contava a tenção,
Porque o matára á traição.
Isto é, senhor, a verdade,
O que vos manda dizer:
Se o que digo é falsidade,{[98]}
(Que por isso a quiz trazer,)
A letra é bom conhecer,
Que é este o seu sinal.
Pois, quem fez tão grande mal,
Bem merece padecer
Morte justa corporal.
Imperador:
Se tal a carta disser,
Não se ha mister mais provar,
Nem mais certeza fazer,
Senão logo executar
A pena que merecer.
E por tanto sem deter,
Lea-se publicamente
Ante esta nobre gente;
Porque todos possam ver
Vossa verdade evidente.
Carta de Dom Carloto a Dom Roldão.
«Caudilho de gram poder,
Capitão da christandade,
Esta vos quiz escrever,
Para vos fazer saber
Minha gram necessidade.
Porque o verdadeiro amigo,
Hade ser no coração,
Assim como fiel irmão
E não hade temer p'rigo,
Por salvar quem tem rasão.
Porque sabereis, senhor,
Que me sinto mui culpado,
Como quem foi matador;
E temo ser condemnado
De meu padre Imperador.
Eu confesso que pequei,{[99]}
Pois com vontade damnosa
A Valdevinos matei.
Amor me fez com que errei,
E o primor de sua esposa.
O Imperador, meu padre
Me mandou prezo guardar,
E nunca quiz attentar
Os rogos da minha madre.
A ninguem quer escutar,
E o Marquez tem jurado
De não vestir, nem calçar,
Nem entrar em povoado,
Até me vêr justiçar.
Tendo por accusadores,
Reinaldos de Montalvão,
E seu padre o Duque Amão,
E muitos grandes senhores:
O Gram Duque de Milão
Com o forte Montesinos,
Que é primo de Valdevinos.
Assim que todos me são
Accusadores continos.
Pois tantos contra mim são,
Eu vos rogo como amigo,
Que vós queiraes ser commigo;
Porque tendo Dom Roldão,
Não temo nenhum perigo.»
Imperador:
Antes que algum mal cresça,
Façamos o que devemos:
Pois o sinal conhecemos,
E pois vemos que confessa,
De mais prova não curemos,
Nem vós façaes mais detença:
E pois já tendes licença,{[100]}
Podeis dizer ao Marquez
Que venha ouvir a sentença.