E o proprio Camões, nos Lusiadas, deixou essa phrase injusta: «Oh sórdido gallego...» ao passo que o povo portuguez derivou da sua indole pacifica o velho amphigurí:
Duzentos gallegos
não fazem um homem...
As povoações do Alemtejo chamam gallegos a todos os moradores do Ribatejo, pela transmissão inconsciente de uma tradição perdida. Isto bastará para explicar o assombro que deve causar aos conterraneos o vêrem a poesia moderna gallega occupando um logar devido ao lado da poesia portugueza, como uma das suas formas archaicas; seguimos o rigoroso criterio scientifico, deixando as preoccupações vulgares.
Pelo estudo da poesia gallega, é que se podem comprehender as formas do lyrismo portuguez; e a desmembração d'esse territorio, que ethnicamente nos pertence e tem permanecido para nós extranho durante tantos seculos, é que prova a falta absoluta de plano na nossa vida politica. A verdadeira origem da tradição lyrica da Galliza está ligada á sua constituição ethnica; esse lyrismo provém da eschola da Aquitania, onde a raça pertencia, segundo Strabão, mais ao typo iberico do que ao gaulez. Segundo as modernas descobertas da Antropologia e da Linguistica sabe-se que o Ibero, ou o basco actual, é de raça turaniana. Quando Silio Italico, escrevendo no seculo I, faz no poema historico da Segunda guerra punica a lista dos diversos povos da Peninsula que acompanharam Anibal na expedição contra a Italia, diz da Galliza:
Fibrarum et pennœ, divinarumque sagacem,
Flammarum, misit dives Gallaecia pubem
Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis,
Nunc pedis alterno percussa verbere terra
Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras,