Haec requies, ludusque viris, ea sacra voluptas.

(Lib. III, V. 345.)

Esta descripção coincíde com muitos caracteristicos da raça turaniana. Acclarando as interpretações de Sarmiento, poremos em relevo este sentido novo. Nas Memorias para la Historia de la poesia y poetas españoles, diz este critico patricio de Feijó: «Primeiramente llama a este pais de Gallicia rico (dives) acaso por los varios y preciosos metales que de alli salian para los romanos, y aun hoy se benefician.» De facto sabe-se hoje que a industria metalurgica é de origem turaniana, e que os vestigios d'esta raça se encontram sempre junto dos grandes jazigos minereos. Diz mais Sarmiento: «supone que tenian idioma proprio y aun idiomas diferentes (propris linguiis). Esto contra los que imaginan un solo idioma nacional en toda España en tiempo de los carthaginezes.» A fusão das tribus turanianas com os celtas lygios (tal como se deu na Irlanda) formando os celtiberos, fazia-se notar aos romanos pelos seus differentes, dialectos. Continúa Sarmiento: «supone los gallegos devotos y religiosos, pues los supone con sacrificios y demas diestros y sagaces en consultar á sus dioses, y al extispicio de sus victimas, ya en el auspicio de las aves, ya finalmente en la observancia, aun que vana, de los movimientos, color, volumen, voracidad y direcion de las llamas de sus holocaustos.» As formas magicas da religião accadica, o culto do fogo, e os nomes de divindades naturalistas que se acham nas Inscripcões colligidas por Hubner, dão a prova demonstrada d'essa raça turaniana, que desceu do norte da Europa. Finalmente Sarmiento: «dice que usaban en sus diversiones, juegos y fiestas sagradas de hymnos, canto, musica y bailes: ulutantem... carmina... alterno verbere pedis... ad numerum resonas cetras[34]

Esta grande abundancia de cantos e hymnos sagrados, tal como se descobriram nos livros accádicos, levam-nos a fixar que sob a forma celtica, acobertada com o nome de Galliza, existe uma camada social turaniana, da antiga diffusão que occupava a Aquitania e a Sicilia. É justamente n'estes pontos que subsistem as fórmas lyricas analogas ás gallegas, e portanto nenhum conhecimento seguro se póde ter do genio d'este povo sem tirar a luz da sua origem turaniana, tão persistente na indole e fórmas da sua civilisação. Os instrumentos musicos a que cantavam eram, como diz Silio Italico, ritu moris Iberi... barbara cetra, o que confirma, que no primeiro seculo christão ainda era sensivel esse caracter turaniano. A acção exercida pelo elemento celtico, romano, e mais tarde suévico sobre a raça turaniana pelo menos até ao Mondego, é complexissima: o celta desenvolveu a tendencia poetica amorosa, fazendo esquecer pelas prescripções druidicas os cantos religiosos; o romano influiu na creação precóce de um dialecto e na industria agricola; a estabilidade do suevo, tornado pacifico pelas suas grandes derrotas, manteve essa passividade que o gallego conserva na constituição das modernas nacionalidades da Peninsula.

De todas estas camadas ethnicas se conservam vestigios poeticos, e com assombro o dizemos, na tradição actual; são de origem turaniana os cantos de Alalála; são celticos os Cantares guayados; são romanos os cantos de Ledino, são suevicas ou germanicas as Chacones. Falaremos d'aquelles cantos tradicionaes que explicam o lyrismo moderno.

O Alalála é a neuma patriotica dos cantos gallegos, que os romanos julgavam ser o ulular; é ella que hallucina o que está ausente da sua patria, e que o cura da saudade nostalgica, chamada em Hespanha morrinha gallega. Um proverbio vasconço diz: Bethico leloa, isto é, «o eterno lelo,» ou—antigo e persistente como este estribilho nacional, que Silio Italico tomou como caracteristico. Na poesia euskariana conserva-se este vestigio cantabrico, que pela sua aproximação dos costumes irlandezes, se vê que é o estribilho de uma canção funebre ou areyto:

Lelo, il lelo

lelo, il lelo

leloa zarac (çaray?)

il leloa.