Deos lhe dê contentamento;

Deixou no seu testamento

Que me casassem.

E se bem não me esposassem,

Que me botem d’aqui fóra;

E da casa arrenegasse

Que não tem homem.

NOTAS

Muitos trovadores provençaes, vendo inutil a galanteria de suas canções, sem esperança de abrandarem o coração ou pelo menos de alcançarem um sorriso das castellãs, precipitaram-se na empreza das Cruzadas; era a resolução extrema a que se entregavam, ao acaso das peregrinações e dos combates, em vez da vida ociosa dos castellos e das côrtes do amor, que mais satisfazia a sua natureza meridional. Quando a Europa, se alevantava levada pelo sentimento religioso, com a idêa no sancto Sepulchro, o trovador ía acompanhado pelo desalento para esquecer o sepulchro dos seus amores—a Provença. Assim se espalharam as grandes tradições cavalheirescas, repetidas na Italia, em Portugal, Hespanha e na Grecia moderna; tradições que se não prendiam a algum facto historico, que versavam quasi sempre sobre peripecias e situações então produzidas pelo estado social: ora se vê um peregrino que pede, tocando na theorba, hospedagem em seu castello para reconhecer a fidelidade de sua dama; ora um mancebo volta da guerra ainda a tempo para salvar a noiva de um casamento forçado; umas vezes uma donzella disfarça-se em trajos de guerreiro; outras vezes é a historia de uma romeira accommettida por algum conde em altas serras, aonde ninguem lhe pode valer. Não se prendendo as versões a facto particular da historia, eram mais promptamente acceitadas na tradição oral, que as accommodava ao gosto da phantasia popular, e á prosodia dos differentes dialectos do Meio Dia da Europa. O povo guardava na memoria o romance ligeiro, com que o trovador peregrino, na sua passagem, pagava a hospitalidade; ía-o repetindo, e o recordar-se era como crear novamente sobre as impressões que tinham ficado: assim dramatisava mais aquellas partes em que o trovador fôra conciso, era mais plangente onde lhe falara á paixão, e prescindindo completamente das transições que não comprehendia. Pons de Capduelh, enamorado trovador da dama Mercoeur, vae morrer na Palestina, inconsolavel pela morte d’aquella que nunca lhe acceitou os galanteios; Gancecem Faidit, depois de amar sete annos a esquiva Maria de Vantadour, alista-se na Cruzada para se tornar mais digno d’ella; Pierre Vidal, na sua doudice, parte levando na alma a imagem de Adelaide de Roquemartine, e na imaginação a conquista do Oriente. D’este poeta encontram-se documentos da sua passagem em Portugal.

A vinda dos Cruzados pelo Mediterraneo á Terra Santa, e o auxilio que prestavam na conquista de Lisboa, fazem crer que pelas narrações das viagens e dos arraiaes espalhassem entre nós essas grandes tradições cavalheirescas do cyclo carolino, que então percoriam a Europa. Os factos levam-nos a estas inducções. Existem na poesia popular da Grecia moderna alguns romances cavalheirescos communs ao Meio Dia da Europa; espalharam-se ali na tradição pela passagem dos Cruzados. Falando do romance piemontez, A Guerreira, o cavalheiro Nigra determina as similhanças que se dão entre elle e um canto slavo publicado por Tommaseo nos seus Canti Greci, illirici, e com outro canto grego que traz o conde de Marcellos nos Cantos da Grecia moderna; por este facto assigna-Ihe a Provença por origem, passando para ali no tempo das Cruzadas. Este romance é em tudo similhante á versão portuguesa da Donzella que vae á guerra, e accresce a circunstancia de ser uma tradição do líttoral, porque é omissa nas collecções hespanholas. Um facto analogo se dá com o romance portuguez da Noiva roubada, e com o romance da Dona Infanta, cujos paradigmas se podem ver na citada collecção do conde de Marcellus. Se estes cantos foram levados para a Grecia pelos Cruzados, e se encontram tambem entre nós, não é destituida de fundamento a inducção, posto que não pizemos o campo da historia.