1 e 2—Romances da Dona Infante.—São estes romances os mais repetidos na tradição oral; um allude ao tempo das Cruzadas; no outro, mais moderno, o Brazil substitue na imaginação do povo o ponto para onde converge a aventura cavalheiresca. A origem d’estes romances é litteraria; na Esposa Fiel de Juan Ribera se determina ella visivelmente. (Duran, Romancero general, n.º 318) Encontram-se paradigmas nos Cantos populares da Grecia moderna, (pag. 152, 162 e 163) no romance catalão de Brancaflor, na collecção ingleza de Percy (Liv.I, p. 261) na Ballada allemã de Liebesprobe (Deutsches Balladenbech, S. 14) nos cantos da França e da Italia (Du Puymaigre, Vieux auteurs castillans, p. 389). Pode com certeza affirmar-se que é um dos principaes romances communs aos povos do Meio Dia da Europa.
3, 4 e 5—Romances de Dom Martinho de Avisado.—Quasi todos os romances portuguezes são de origem castelhana e ainda se encontram nos Romanceiros hespanhoes. A donzella que vai á guerra não apparece n’essa collecção; apesar d’isso Garrett não o julga originalmente portuguez. Fala d’este romance Jorge Ferreira de Vasconcellos (Scena I, acto III; fol. 84 da Aulegraphia) conhecido no seculo XVI pelo Rapaz do Conde Daros. Versões d’elle se encontram no Alemtejo, Extremadura, Minho, Trás-os-Montes, Beira Alta, Beira Baixa, Açores e Lisboa; a donzella que vae á guerra, segundo cada provincia, ora se chama Dom Martinho de Avisado, Dona Leonor, Dom Carlos, Dom João e Dom Barão. Foi pela primeira vez publicado por José Maria da Costa e Silva nas notas ao seu poema Isabel ou a heroina de Aragão, em 1832. M. Nigra, em seus interessantissimos estudos da poesia popular do Piemonte (Revista Contemporanea de Turin, novembro de 1858) publíca um romance piemontez, intitulado a Guerreira, que é como uma variante da versão portugueza:
«Porque choraes, meu pae, porque Choraes? Se tendes de ir á guerra, eu irei por vós; apromptai-me um cavallo que possa levar-me bem, e um bom pagem em quem me possa fiar. Tomae meus vestidos cinzentos, dae-me umas calças e um gonel, e com a minha pequena fita fazei-me um laço sobre o chapéo.» Quando chegou a Nice, eis que sobe aos bastiões: «Oh! vêde-a! que linda pequena vestida de rapaz!» O filho do rei estava á janella, a miral-a: «Oh! que pequena tão bella: se ella quizesse ser minha! Oh minha mãe, minha mãe, ella é uma rapariga! Oh que pequena tão bella: se ella quizesse ser minha! «—Se queres saber quem é, leva-a a casa de um negociante; se fôr uma donzella, só ha de comprar luvas.—Olhae, meus soldados, olhae para estes guantes!—Soldados que vão á guerra não têm frio nas mãos.—Oh minha mãe, minha mãe, é certamente uma donzella! Oh que pequena tão linda: se ella quizesse ser minha!—Se queres saber quem é, leva-a a casa de um ourives; se fôr uma rapariga, ha de comprar um annel.—Olhae, meus soldados, vêde que anneis tão bellos.—Soldados que vão á guerra só precisam de espadas e punhaes.—Oh minha mãe, minha mãe, é certamente uma donzella. Oh que rapariga linda! Se ella quizesse ser minha!—Se queres saber quem ella é, leva-a para dormir comtigo. «Ella apagou o candil e mandou para lá o seu creado.» Oh minha mãe, minha mãe, é certamente uma donzella! Que rapariga, linda! se ella quizesse ser minha!—Se queres saber quem é, fal-a passar na agua; se for uma donzella, não se ha de querer descalçar. Ella despiu uma perna, quando chegou uma carta; a carta diz que lhe dêem a sua baixa. A pequena a meio caminho se poz a cantar: «Donzella estive na guerra, donzella voltei de lá».
No romance portuguez também se encontra esta prova do banho, e da carta que o pagem lhe traz, mas continúa, porque o capitão acompanha-a na volta á patria e vem a casar com ella. Na licção dos Açores, que traz Garrett, (t. III, pag. 65) termina egualmente o romance com um conceito engraçado:
Sette annos andei na guerra
E fiz do filho barão,
Ninguem me conheceu nunca,
Senão o meu capitão;
Conheceu-me pelos olhos,
Que por outra cousa não.