M. Nigra encontrou tambem na Servia vestigios d’este romance. Posto que se não ache nos Romanceiros hespanhoes, Jorge Ferreira na Comedia da Aulegraphia traz uns fragmentos em castelhano:

Pregonadas son las guerras

Da Francia contra Aragone...

Como los haria triste

Viejo, cano o peccador?...

que fazem suppor ter elle existido primitivamente n’esta lingua, attendendo á grande importancia que o castelhano tinha na corte portugueza. Tommaseo recolheu nos seus Canti greci, illirici, etc., um canto slavo, cuja similhança com o canto piemontez e portuguez faz suppor uma origem commum. Tommaseo publicou tambem um canto grego moderno. Qual será essa origem commum? M. Nigra diz que «os cantos romanescos communs á poesia romanesca das raças latinas devem, sem se hesitar, ser considerados como vindos e muitas vezes originarios da Provença, etc.» M. Nigra julga este romance do tempo das Cruzadas, passando da Provença para os paizes Slavos e para a Grecia. É o unico modo como se pode explicar o seu apparecimento na poesia popular das duas Peninsulas. (Du Puymaigre, Vieux Auteurs Castillans, Append. p. 462 e 465.)

6—Romance de Gerinaldo—São muitas as influencias das tradições do norte sobre a poesia do nosso povo. O Conde Niño tem um final como o romance de Tristão e Yseult; a Imperatriz Porcina, de Balthasar Dias, encontra-se na lenda de Hildegarda, recolhida por Jacob Grimm. O romance de Reginaldo pertence ao cyclo carlingiano; não nos veiu através da Hespanha, como a maior parte dos romances carolinos; os dois romances recolhidos das folhas volantes publícados no Romancero general de Duran (1849-51, tomo I, p. 175 e 176,) differem muito do nosso; o primeiro é incompleto, e o segundo tem uma côr mourisca da fronteira. Em cada provincia dão ao pagem feliz diversos nomes; no Alemtejo Generaldo, no Minho e Porto Girinaldo o atrevido, e na Beira, segundo descobriu primeiro Garrett, chamam-lhe Eginaldo, que é a traducção mais proxima de Eginhart. Quasi todos os nomes dos personagens carolinos foram aportuguezados pelo nosso povo, como Valdovinos, Reinaldos de Montalvão, Roldão, Oliveiros, Beltrão, Dones Ogeiro, transformados de Bauduin, Reynaud de Monteauban, Roland, Olivier, Bertrand, Ogier le Danois. O romance portuguez de Reginaldo, tal como corre no Alemtejo, Extremadura, Beira Alta, Beira Baixa, Minho, apesar de todas as differenças de acção nas variantes, aproxima-se o mais possivel da tradição, que Jacob Grimm recolheu do Chronicon Laurishamense, (ed. Manheur, 1768, in 4.º, I, f. 40, 46) e que Vicente de Bauvais refere ao tempo de Henrique III: «Eginhart, primeiro camarista e secretario de Carlos Magno, alcançou, pelos bons e leaes serviços na corte, a estima de todos, e sobretudo o amor de Emma, filha do Imperador. Estava promettida em esponsaes ao rei da Grecia; e quanto mais o tempo do casamento se aproximava, mais a intima inclinação d’Eginhart e de Emma se fortificava em seus corações. Detinha-os o medo de que o rei não viesse a descobrir esta paixão e se enfurecesse. Por fim o mancebo não pode dominar os seus transportes; revestiu-se de coragem, e, não podendo communicar com a joven princeza por algum confidente, veiu protegido pelo silencio da noite ao quarto d’ella. Bateu levemente á porta do aposento, como se viera mandado pelo rei, e entrou. Ali protestaram o mutuo amor, e regosijaram-se nos abraços tão ardentemente desejados. Eis que, ao romper da alvorada, o mancebo ao retirar-se viu que havia cahido durante a noite muita neve, e não se atrevia a dar passo da soleira da porta, porque as pegadas de homem o teriam logo trahido. N’esta perplexidade, os dois amantes resolveram o que haviam de fazer, e a menina concebeu um plano atrevido: quiz a toda a força pegar em Eginhart aos hombros, e antes do rasgar da manhã levou-o até á porta do seu quarto, e voltou cuidadosamente sobre as mesmas pegadas. Logo n’esta noite não tinha o imperador pregado olhos; levantou-se, e mal raiavam os primeiros alvores, se poz a olhar para os jardins do palacio. Então viu passar por debaixo das janellas a filha, que vergava sob o doce, mas carregado pezo, e que, depois de o haver deposto, correu rapidamente sobre os primeiros passos. O imperador firmou-se bem, para se não enganar, e ao mesmo tempo se sentiu tocado de dor e admiração; comtudo calou-se. Eginhart que sabia muito bem que mais hoje ou amanhã chegaria o caso aos ouvidos do rei, resolveu-se, e veiu ter com seu amo, deitou-se-lhe aos pés, pedindo que o despedisse, a pretexto de que seus fieis serviços não eram suficientemente recompensados. O rei ficou silencioso por longo tempo, e refreiou seus sentimentos; alfim prometteu ao joven de lhe dar uma prompta resposta. No entanto formou um tribunal, reuniu os primeiros e mais íntimos conselheiros, e descobriu-lhes que a magestade real fôra ultrajada pelo commercio amoroso de Emma com o secretario; e em quanto ficaram todos surprehendidos com a nova de um crime tão inaudito e grave, explicou-lhes como se haviam passado as cousas, e como observara tudo com os proprios olhos; depois, quando acabou, pediu-lhes parecer sobre o facto. A maior parte dos conselheiros, homens prudentes e inclinados á doçura, foram de voto que o rei pronunciasse de motu proprio sobre esta circunstancia. Carlos, depois de haver considerado o caso em todas as suas faces, reconheceu n’este acontecimento o dedo da Providencia, resolveu usar de clemencia, e casar os dois amantes. Applaudiram todos com alegria a moderação do rei, que mandou chamar o secretario e lhe falou assim: «Ha mais tempo devera ter compensado melhor os teus serviços, se me tivesses já manifestado o teu pezar; agora quero, em recompensa, dar-te em casamento minha filha Emma, pois que ella propria, levantando sua cintura, te quiz levar aos hombros.» Immediatamente deu ordem para que chamassem a filha, que appareceu muito córada, e em presença da assembleia foi casada com o enamorado. Deu-lhes um rico dote em bens immoveis, em ouro e em prata: e depois da morte do imperador, Luis-le-Debonaire fez-lhes presente, por um acto particular de doação, de Michlinsadt, no Maingan. Os dois amantes, depois de mortos, foram enterrados n’esta referida cidade. A tradição oral do paiz conserva ainda a sua memoria, e a floresta vizinha, se se der credito a esta tradição, se chamou Odenwald, porque uma vez Emma se dirigiu a ella exclamando «O duwald! «Oh tu, floresta.» (Tradições allemãs de Jacob Grimm, ed. franceza de 1838, t. II, p. 149, 152.) O nosso romance popular apenas differe d’esta tradição em lhe faltar a pequenissima circumstancia da neve e das pégadas. Em nada altera a acção; os trovistas do Meio Dia só tiraram da tradição os episodios que conheciam; descreveram a paixão como a sentiam; pintaram a natureza como estavam costumados a vel-a. É assim qne se transplantam e naturalisam as tradições e as formas poeticas. Garrett, no engraçado estudo com que precede a sua versão de Reginaldo, quer achar na ballada ingleza de Little Musgrave and Lady Barnard uns longes de semilhança com o nosso romance: (Percy’s Reliquis, XI, secç. III, book the first), o que o leva a julgar a tradição de todos os paizes; no romance de Blancefleur ha o mesmo episodio do sonno dos dois amantes (v. 2363). Este assumpto era da predilecção dos menestreis populares; representa a acção que, segundo Edgar Quinet (Revoluções de Italia) exerceu a poesia provençal, isto é—a fusão do elemento aristocratico e feudal com o povo, pelo sentimento; a nossa lenda dos amores de Bernardim Ribeiro e da infanta Dona Beatriz, promettida ao duque de Saboya, tambem se parece bastante com a de Eginhart, accommodada ao gosto de uma civilisação mais conveniente. No romance de Reginaldo se encontram costumes dos povos do norte; o imperador, quando encontra o pagem dormindo com sua filha,

Tira el-rei seu punhal d’oiro,

Deixa-o entre os dois mettido,

O cabo para a princeza,