Para Reginaldo o bico.
Foi-se a virar o pagem,
Sentiu-se cortar no fio:
—«Accorda já, bella infanta,
Triste sonno tens dormido!
Olha o punhal do teu pae,
Que entre nós está mettido.»
Tambem no thalamo de Brunhilde e Sigurd, e na pyra, se collocou entre ambos uma espada (Ampère, Litterature du Nord; Michelet, Origines, p. 32). Já nos romances de cavalleria, quando o esposo encontra Yzeult dormindo com o amante entre a relva, retira-se tranquillo, porque ha entre ambos uma espada (Michelet, Histoire de France, t. II, c. 1, prope finem). A significação d’este symbolo cavalheiresco era o respeito, como ainda no seculo XV se usava, quando o procurador do archiduque Maximiliano desposou Maria de Bourgonha, e dormiu com ella separado por uma espada núa. (Grimm, Antiguidades do Direito Allemão, p. 170.) No romance popular o cabo voltado para a princeza e o fio para o pagem, denota aquelle symbolo juridico da Lei Ripuaria: «que uma mulher livre que desposasse um escravo contra a vontade da familia devia escolher entre a espada e a roca, que o rei ou o conde lhe apresentassem. Se pegava na espada, era preciso que ella matasse com suas mãos o escravo; se escolhesse a roca, devia permanecer tambem na escravidão.» (Lex Rip. 58, 18, d’après Michelet, Origines, p. 31.) Na Hespanha havia tambem um costume em que a mulher renegava o marido de inferior condição depois de morto, e tornava a alcançar os seus fóros.
Uma das verdades da poesia popular é o seu apparecimento logico; o romance de Gerinaldo encontra-se em Hespanha e Portugal, justamente até onde se estendeu a acção da poesia provençal; o genio hespanhol, impulsionado pelo sentimento cavalheiresco da honra, e o caracter portuguez, dominado pela integridade do dever, acceitam esta creação dos trovadores da Provença, em que a dama do solar, a filha do hidalgo se deixa amar por um homem de condição inferior. Cumpre citar aqui a auctoridade de Edgar Quinet no seu brilhante livro das Revoluções de Italia: «A feição caracteristica dos trovadores é que quasi todos são filhos de servos que, pelo acaso do genio, pela elevação do coração, se acham por instantes em uma relação de egualdade ficticia com a aristocracia feudal. Entrando no solar o filho do povo, o trovador, todo emoção, ingenuidade, alma, poesia, paixão, é immediatamente deslumbrado pelo encanto da dama sua soberana; ousa apenas levantar os olhos para ella. D’onde resulta, que pela sua propria origem, o amor dos trovadores nasceu de relações inteiramente novas, que repugnavam á antiguidade, em que a mulher se torna o forte, e o homem fica o ente fraco. As relações dos sexos estão invertidas: é a mulher que protege, e o homem que necessita do apoio. Do lado d’ella está a auctoridade, o mando, o pleno poder; para elle ha só timidez, a submissão do servo. O trovador dedica-se a uma pessoa, que das alturas sociaes em que está collocada o domina, o opprime com a superioridade; é sempre para elle um ser inaccessivel.» (p. 80). Em outro logar o profundo pensador dá ainda mais relevo a esta idea: «O começo da sociedade moderna é a alliança da castellã e do filho do povo sobre os confins da barbaria; n’este laço chimerico, n’este momento de extasis que aproxima as duas extremidades da humanidade e casa duas condições que no decurso dos seculos estiveram sempre desunidas, está verdeiradamente encerrado o nascimento civil do mundo moderno. Emancipação real do escravo pelo amor d’aquella a quem elle pretence, instincto manifesto de fraternidade social, egualdade das almas, tudo está contido nestes esponsaes invisiveis da dama nobre com o humilde servo» (p. 85). Todos estes sentimentos nos são despertados ao lêr o romance de Gerinaldo; é incontestavelmente de origem provençal, e tanto que até pode servir como prova do pensamento luminoso de Quinet. Cada vez nos convencemos mais do que uma vez disse Jacob Grimm: que não ha uma só mentira na poesia popular.
Este romance canta-se em Freixo de Espada á Cinta; é mais breve do que na lição de Garrett; differe em pequenas circumstancias, e no desenlace principalmente. El-rei vae dar com o pagem dormindo com a infanta por causa de um sonho, um pezadello sinistro, que bem certo lhe sahia; no Reginaldo de Garrett, é já dia e não apparece o pagem para trazer os vestidos a el-rei, caso que o leva a serias desconfianças. Na versão do Alemtejo remata com um epigramma: el-rei castiga o pagem dando-lhe a filha por mulher. O final do romance, como traz o Romanceiro de Garrett (t.II, p. 161), parece não pertencer-lhe, como ampliação que afrouxa as situações; antes parece mais uma addição do romance hespanhol de Virgílios. Nas collecções hespanholas o romance de Gerinaldo termina sem a ampliação da versão de Garrett.