Garrett nas poucas linhas com que precede este monumento da nossa poesia popular maritima, admira-se de que um povo de argonautas não exercesse o seu genio creador no romance maritimo.

O século XVI foi a edade da prosa; comtudo o povo é sempre infante, sempre creador e poeta; mas as imitações classicas infatuadas de sciencia absorveram as attenções a ponto de excluirem a poesia popular. O poema cyclo do mar tivemol-o nós. Basta ler as relações das viagens, dos naufragios, das fomes, das tormentas. Antes de se fixarem na forma prosaica da Historia Tragico-maritima, essas dores foram primeiro soffridas e communicadas. A Nau Catherineta não tem uma certa origem historica, como suppõe Garrett, é o germen de uma Odyssea, aonde a multiplicidade das scenas de naufragio estão reduzidas á generalidade mais tetrica. Entre os folhetos de cordel do seculo XVIII encontramos a narração do naufragio da nau Gloria, feito em verso por um marinheiro.

24, 25 e 26—Romances do Conde Prêso—Um facto notavel se dá n’estes romances: como tres provincias, Trás-os-Montes, Beira-Baixa e Beira-Alta se apoderaram de uma mesma tradição, e dos diversos modos como a bordaram. A versão de Trás-os-Montes é simples, não admitte a intervenção do maravilhoso, que repugna ao genio dos romances carolinos; a versão da Beira-Alta foi tomando uma côr religiosa, traz o milagre do romeiro, que era Sanctiago vindo proteger a sua devota. Sem duvida esta é a mais moderna, por isso que o sentido do romance antigo, e o instincto da independencia, cavalheiresca, já não é comprehendido, nem basta para sustentar o romance. Garrett confundiu as duas versões (Rom. t. II, 289). «Poucas cousas mais bonitas, diz elle, tem o romanceiro popular da nossa peninsula. Onde nasceu não sei; mas as collecções castelhanas não o trazem.» A versão da Beira-Baixa mostra-nos a sua origem hespanhola; chama-lhe Dom Garfos, corrupção do nome Conde Grifos do Romanceiro hespanhol (Duran n.º 324). Não ha aqui maravilhoso, mas sim uma audacia cavalleirosa, a independencia altiva que distingue os romances carolinos da França dos romances carolinos da Allemanha. Sente-se nesta versão a herança do crime do primitivo direito symbolico, e um tanto da irmandade heroica na presteza com que Dom Garfos acode a seu tio, indo falar ao rei, desafiando-o, vingando-se a final na filha d’elle, que é sua propria mulher. Vejamos a lição hespanhola:

El Conde Grifos Lombardo

En aquellas peñas pardas,

En las sierras de Moncayo

Fue do el Rey mandó prender

Al conde Grifos Lombardo,

Porque forzó uma doncella

Camino de Santiago,