Do Conde de Allemanha diz Garrett: «Facto conhecido da historia de Portugal ou de outra parte de Hespanha, não sei que o memore este romance;» Duran, falando da versão hespanhola (n.º 305 do Romancero general) diz: «Tiene este romance antiquissimo alguma analogia con el historico del conde Garci Fernandez; pero, un y otro mas parecen tomados de una fabula caballeresca, que no de un hecho verdadero.»
Derivado do Cancionero de Romances de 1581, impresso em Lisboa, podemos sem errar, assignar-lhe uma origem litteraria.
31, 32 e 33—Romances de Dom Carlos de Montealbar—Eis um d’aquelles romances de que o povo tanto se apossou, que o inverte e borda, a capricho, tomando a acção como typo de novas situações. Ha aqui visivelmente a confusão da Claralinda da versão do Porto e Beira Alta. No Romanceiro hespanhol encontram-se as versões d’onde os nossos troveiros abreviaram a lição portugueza. O romance del Conde Claros (n.º 364) é a que parece mais ter contribuido para a versão portugueza. Depping julga pertencer aquelle romance ás aventuras de Eginart e da filha de Carlos Magno. A variante de Dona Lisarda (Duran, romance de Dona Aliarda, n.º 329) parece-se muito com a Albaninha da lição de Garrett, (t. III, p. l5) principalmente nos gabos do cavalleiro. A variante de Dona Areria é uma confusão do romance de Dona Ausenda. (Vid. Hist. da Poesia popular portugueza, p. 152 e 162).
34—Romance do Passo de Roncesval—Depois da Beira-Baixa é provincia de Trás-os-Montes a mais rica de tradições populares. Veio de lá este romance; é como um ecco da energia da velha Chanson de Roland. O cavallo levanta-se do meio do destroço para defender-se de que não faltou á irmandade heroica do cavalleiro.
São assim os cavallos do cyclo carolino, como o cavallo Bayard, que ao escarvar em terra parecia que tocava lyra! Como veio esta strophe do poema de Roncesvalles fluctuar na tradição portuguesa? Como se conservou no romance a memoria local, sendo a que primeiro se oblitera na tradição? Viria directamente da Hespanha no principio do seculo XVI, ou já cá existiria, desde que os Cruzados ao passarem pelo Mediterraneo espalharam entre nós as grandes legendas dos cyclos cavalheirescos da Europa? Questões estas que se devem propôr, mas não resolver, sem risco de temeridade. Sabemos que este romance era conhecido em Portugal no principio do seculo XVI, por isso que o encontramos citado em Gil Vicente na Comedia de Rubena; vem lá o conhecidissimo verso dos romances de Roncesvalles: Em Paris esta Dona Alda, que, podemos asseveral-o com certeza se derivou para a tradição pelo celebre Cancionero de Romances de Anvers, reimpresso em Lisboa em 1581. Foi Garrett o primeiro que recolheu este romance, e por felicidade o não aformoseou, porque não pode alcançar variante alguma (Rom. t. II, p. 234). Encontram-se versões mais extensas no Romancero General de Duran, (nᵒˢ 395, 396 e 397) d’onde com certeza foi abreviada a nossa.
35—Fragmento de um romance do Cid—Muitos romances populares portuguezes se encontram citados na obras de Gil Vicente. (Vid. a Historia da Poesia popular, p. 23, e 138). Este fragmento do Romanceiro do Cid encontra-se no Auto da Luzitania, (t. III, pag. 270,) e lê-se por extenso no Tesoro de los Romanceros de Ochoa, p. 185, que o aponta como um dos mais antigos e mais populares:
Helo, helo por do viene
El moro por la calzada,
Caballero à la gineta
Encima una yegua baya,