Pode confrontar-se a variante portuguesa; é no pequeno fragmento mais bonita, por causa da segunda elaboração que lhe deram cá. Este mesmo romance foi imitado em Hespanha, como se vê na Primavera y flor de Romances, t. II, p. 36.
36 e 37—Romances de Dom Gayfeiros—Pertencem estes dois romances ao cyclo carolino, caracterisado pela altivez do cavalleiro, e por brilhantes feitos de armas. O gosto mourisco do seculo XVI vae modificando os heroes da tradição carlingiana, até os substituir completamente pelos contos de cativos. A lição de Garrett (Rom. t. II, p. 250) traz as duas variantes em uma só versão formada pelas differentes copias que obteve de Trás-os-Montes, e pelo manuscripto do Cavalleiro de Oliveira, traduzindo nas situações duvidosas a lição castelhana de Duran (Rom. general n.ᵒˢ 374 a 381). Na tradição oral nunca os romances são tão extensos; nem o povo sabe o nome dos Doze Pares, nem do Arcebispo Turpin, para os nomear no sequito que veio receber os dois amantes. Os romances populares são sempre dramaticos, raras vezes narrativos, e nunca descriptivos. A lição de Garrett abunda em descripções, justamente nos pontos em que elle segue a versão hespanhola, a qual por ser antiquissima, isto é, mais proxima da sua composição jogralesca, devia de ser assim descriptiva. Duran julga ser o romance de Dom Gayfeiros o que mais quadra com a memoria que d’elle deixou Cervantes no Don Quijote (Part. 2, cap. 26). As versões portuguezas todas mais curtas do que as lições castelhanas dos romanceiros, como Garrett o confessa, denunciam a sua origem, e o processo da abreviação, que a antiguidade lhes vae dando, reduzindo-as aos traços mais profundos. Veio-nos o romance, directamente da Hespanha para a tradição portugueza, e no seculo XVI correu elle na sua linguagem nativa, por isso que Gil Vicente, na Comedia de Rubena o cita no dialogo da Ama (Tom. II, scena II, p. 27): Vámonos, dijo mi tio, que é o primeiro verso do segundo romance de Gayfeiros que traz Ochoa no Tesoro de los Romanceros, p. 44. Veio do Cancionero de Romances de Anvers, reimpresso em Lisboa em 1581; collecção celeberrima, por ser a primeira em que se recolheram os romances directamente da tradição oral, até então desprezada. Quasi todos os romances de origem hespanhola, communs aos povos do Meio Dia da Europa, d’ali se derivaram para a tradição portuguesa. Tambem o romance do Mouro Calainos, aonde se fala de uma cativa que está em Sansueña, a qual muitas vezes requerida de amores, só os escuta com a condição de lhe trazerem de Paris tres cabeças dos melhores Pares, pertence ás aventuras de Gayfeiros. É certo que esse mesmo andou na tradição portugueza, porque no Index Expurgatorio de 1624 se prohibe: «O Romance do Moro Calaynos y de la Infanta Sybilla.» (Index, Lisboa, 1624, por Pedro Craesbeck, pag. 174).
Uma tradição quasi similhante é a de Mira-Gaia, que se lê no Nobiliario, e que foi romanceada por João Vaz, no seculo XVI.
38—Romance de Flor e Brancaflor—Outra vez a peripecia de reconhecimento, como na Dona Infanta, e Infanta de França, tão usada em quasi todos os romances populares da Europa. Corre esta versão pela Beira Baixa, Minho, Extremadura, Ribatejo, Beira-Alta e Trás-os-Montes. Publicou-a Garrett, (Romanceiro, t. 2, pag. 183) dizendo: «Nem os romanceiros castelhanos, nem escriptor algum faz menção do bello romance da Rainha e Cativa.» É porem certo que se encontra com o titulo Las dos Hermanas na Primavera y flor de Romances, t. II, pag. 38, d’onde é manifesta a origem do romance portuguez cujas pequenas circumstancias segue. E verdadeira a opinião de Garrett, quando o faz pertencer ao seculo XII. M. Milá y Fontanals recolheu um romance similhante Las dos Germanas da poesia popular da Catalunha, no qual predomina uma completa originalidade; podo ler-se nas suas Observationes sobre la Poesia popular, pag. 117. O romance portuguez é superior ás lições castelhanas. Du Puymaigre tira a este proposito uma judiciosa conclusão: «Que os portuguezes muitas vezes romanceam com mais talento assumptos que se acham nas collecções dos dois povos; porem esta perfeição denota a sua pouca antiguidade. De ordinario os romances portuguezes são mais claros, mais bem desenvolvidos, para que se tomem por primitivos.» (Vieux auteurs Castilhans. t. II, p. 370). Será este romance um vestigio remoto e já completamente alterado pela tradição do romance de Flor e Blanchefleur? Os nomes dos personagens são o Conde Flores e Brancaflor a quem os mouros cativaram:
Dia de Paschoa florida,
Andando apanhando rosas
N’um rosal que meu pae tinha.
O nome de Blanchefleur, nas versões francezas é explicado pelo dia do nascimento do heroe:
Li doi enfant, quant furent né,
De la feate fure nomé: