«Uma noite, depois que o mouro o meteu na triste masmorra, na forma que temos dito, sobre algemas nas mãos e outros ferros nos pés, lançou-lhe no pescoço um grosso collar, das argollas do qual sahia uma forte cadeia de trinta palmos, com que lhe foi dando voltas, e enrolando o corpo todo. E para dormir mais a somno solto, lançou sobre o alquifer que vestia um alfange a tiracollo, e prendeu um lebreo que tinha ás argolas da arca. Feita esta diligencia estendeu-se sobre ella, e contente com o que tinha de novo acrescentado, bateu-lhe de cima dizendo que se não esquecesse de fazer oração ao seu Domingos da Sovereira, que o viesse livrar de suas mãos...... Assim se lançaram a dormir á noite ambos em terra de mouros: assim amanheceram amo e escravo em terra de christãos com grande distancia de leguas, em meio, e á porta de Sam Domingos da Sovereira em Penamacor..... Abriu o mouro os olhos, viu-se entre montes e cercado de gente, que pelo trajo e espanto que fazia de sua vista conhecia ser christã. Espantava-se o enterrado na arca ouvindo linguagem da sua terra e muitas vozes juntas. Mas nem amo, nem cativo se atreviam a dar credito um aos olhos, outro aos ouvidos: ambos haviam que era tudo sonho. Em fim, como não é facil de enganar o sentido da vista, e o mouro viu que tudo o desenganava, e que estava entre christãos, não por sonhos, senão com effeito, que via a egreja, e ouvia som de sinos que a infidelidade sobre tudo aborrece, acabou de caír que não eram palavras mal fundadas as do seu cativo quando tanta confiança fazia do seu santo. Lembrava-se de tudo com estranha confusão, e só desejava saber por ultimo desengano se estava em Portugal. Como tinha conhecimento das linguagens de Hespanha, perguntou a um de muitos que o rodeavam espantados de tal invenção de romeiro e tal alfaias de romaria, como chamavam a terra, e o sitio em que estavam. Quando soube que tinha diante dos olhos Sam Domingos da Sovereira ficou como fóra de si de pasmado e attonito; e, conformando-se com o tempo, quiz começar a grangear com cedo quem por boa conta trocadas as sortes havia de ser seu senhor.... Foi o mouro logo revolvendo um molho do chaves que lhe pendiam da cinta, e abrindo cadeados e fechaduras da sua arca. Chegaram os circunstantes a ver que peças trazia para offerecer em tam grande arca o romeiro estranho: senão quando dão com os olhos em um Lazaro sepultado, e em rosto e cores defunto; mas vivo na voz, e envolto em novo genero de mortalhas, mortalhas de ferro: e tão carregado d’ellas, que de nenhum membro era senhor, senão só da lingua, com a qual, voz em grita chamava por Sam Domingos, como quem tinha já sentido onde estava..... Solto em fim sem outra palavra na bocca mais que Sam Domingos, deixa-se cahir em terra, abraça-se com ella, beija-a, e vae-se prostrar diante do altar do Santo...... O cativo cumpriu sua promessa, viveu e morreu ermitão do Santo. O mouro penetrado da grandeza do milagre pediu o santo baptismo (divina força da predestinação) e ficou em cativeiro livre e ditoso servindo a ermida e acompanhando o seu cativo. E por morte foram enterrados juntos á porta d’ella, onde os cobre ambos uma só campa com um letreiro que o declara.» Hist. de S. Domingos, Liv. IV, C. V, f. 211, v. Resumimos o facto deixando de parte os consectarios moraes e piedosos do chronista. Todas as lendas da edade media tendiam a localisar-se; eis porque apparecem reproduzidas. As tradições dos cativeiros, e as esmolas na Arca da piedade iam formando estas creações da mente popular. O milagre é tambem uma das formas do maravilhoso do povo.
41 e 42—Romances do Cativo de Argel—Este romance foi-me offerecido no Porto, escripto um uma letra que denuncia o seculo XVII. Guardo este documento, que prova mais uma vez a grande intuição artistica de Garrett, quando disse: «O romance anda por Lisboa, Ribatejo e Extremadura fóra;—não deve de ser mais antigo que o meado do seculo XVII, se a copla em que allude a Ceuta e Mazagão não é rifacimento moderno, como tambem pode ser e me inclino a crer que é, porque no resto o sabor e o estylo é mais velho.» A lição de Garrett, (Romanceiro, t. III, p. 77) é mais extensa, mais dramatica, mas não tem o mimo, a rudeza primitiva, desta versão meio portugueza, meio hespanhola do dialecto popular usado n’este genero de composições. Diz mais Garrett, que se não acha nas collecções hespanholas. Eis como ella anda n’aquelles romances tradicionaes de cativos, de um modo que parece d’onde sahiram as versões portuguezas:
El Cativo
Preguntando esta Flerida
A su esposo placentera
En un vergel asentada
Junto á uma verde ribera:
—Digasme tu, esposo amado,
De dónde eres? de que tierra?
Y a dónde te captivaron?