Que lhe non ouv’ eu flores tal amor

Qual vos eu ey; etc.» Pag. 52.

O romance de Banchefleur encontra-se na tradição de todos os povos da Europa; andou por certo na tradição jogralesca, como se vê por este verso:

Mais a un clerc dire l’oït

Qui l’avoit léu en escrit.

V. 51—52.

E assim veio até Portugal pelo tempo dos Cruzados; apoia-se esta conjectura no facto de se encontrar tambem na tradição da Grecia moderna em um poema (publicado por Bekher nas Memorias da Academia das sciencias de Berlim em 1845) o qual fala da antiguidade da tradição.

39—Romance da Moira Encantada—Esta lenda foi recolhida no Algarve pelo sr. Stacio da Veiga e publicada no nº 12 da Estrella de Alva. O maravilhoso feérico das mouras encantadas é do genio popular d’aquella provincia; tambem ali o romance da Nau Catherineta acaba phantasticamente; segundo o citado collector, este romance é dos mais populares do Algarve, e exprime a crença commum e antiga de que na cidadella mourisca de Tavira, á meia noite, na vespera de Sam João, apparecia a formosa encantada pedindo que algum cavalleiro viesse romper-lhe o encanto. Colloca tambem a sua formação nos fins do seculo XVI, principios do seculo XVII, quando o gosto mourisco foi imitado entre nós por Dom Francisco Manuel do Mello nas Tres Musas de Melodino, e por Francisco Rodrigues Lobo no seu pequeno Romanceiro. O final parece imitado do romance da Moriana e do mouro Galvan, que jogava no jardim com a sua amante, e de cada vez que perdia, ia-se-lhe uma villa ou cidade. No romance do Algarve Dom Ramiro ganha um castello, mas sem moira para amar. Isto revela um tanto a sua origem artistica.

40—Romance de Nossa Senhora dos Martyres—O sentimento do maravilhoso e a inspiração piedosa tornam este romance de aventuras mais do genio celtico, do que do gosto mourisco. Nos Açores são vulgares as tradições dos piratas da costa; e na legislação portuguesa se encontram varias multas applicadas para a Arca da Piedade, d’onde sahia o dinheiro para a redempção dos cativos pelos trinitarios. Foi colligido este romance no Algarve, pelo sr. Stacio da Veiga; repete-o o povo na romaria de Castro-Marim no meado de Agosto. A tradição é antiquissima, a sua forma poetica é porem mais moderna. Frei Luiz de Sousa no livro IV da Historia de Sam Domingos, refere o milagre do seguinte modo:

«Reinando em Portugal el-rei Dom Afonso III, que foi Conde de Bolonha, succedeu cair em poder de mouros um homem natural de Penamacor. Escureceu o tempo as particularidades do nome e calidades da pessoa, e da occasião e logar do cativeiro. Era o tratamento do amo mais de inimigo e tyranno, que de amo e senhor. Porque sendo o pobre cativo seu e fazenda sua, assim se deleitava em lhe fazer cruezas, como se fora christão livre, ou cuidara que com os tormentos lhe acrescentára a vida. Não tinha o atribulado outra consolação no meio dos trabalhos, senão era soccorrer-se ao Santo da sua terra, Sam Domingos da Sovereira. E quando a força d’elles lhe arrancava algum gemido (que até o suspirar era culpa diante do barbaro), sempre saia envolto com o nome de Sam Domingos. Era isto tão ordinario que o mouro (devia ser algemiado, e d’aqui collijo que o cativeiro seria em Granada, ou em outra terra de Hespanha, das muitas que então e muitos annos depois senhoreavam os mouros nella) veio a notar-lhe a linguagem. E porque não ficasse cousa em que deixasse de o martyrisar, perguntou-lhe um dia que arenga era aquella que trazia na bocca, contínua, quando devia chamar por Alá, nomear Domingos, Domingos (é Alá o nome por que os mouros conhecem a Deos.) Alegremente confessou elle que trazia na bocca, e tinha na alma tendo por obra de fé e animo catholico pronunciar claramente e com a lingua o que sentia o coração: e foi proseguindo que era um santo subido, pouco tempo havia, da terra ao céo, e conhecido na sua por grandes maravilhas que obrava, e em quem elle tinha esperança que o havia de livrar das suas mãos. Caro lhe custou ao pobre a alegria e liberdade da confissão, pagou-a com rigoroso castigo presente e com outro mais duro que não tardou. O primeiro não estranhou tanto, como era seu pão quotidiano, offerecendo-o a Deos por honra da fé. Mas com o segundo se viu reduzido a termos de desesperação. Julgou o bárbaro que as esperanças do cativo se deviam fundar em alguma determinação e traça de fugida: quiz acautelar-se; Vindo uma noite cansado de servir e trabalhar o dia inteiro, encerrou-o sobre má cêa em um novo genero de masmorra, que era um arcaz grande e forte, que depois de fechado com mais do uma chave, lhe ficou para inteira segurança servindo do leito. Mas parecendo-lhe, que ainda assim o não tinha bastantemente arrecadado, ia cada dia accrescentando novas cautellas a sua desconfiança. Já lhe lançava algemas nas mãos, já adobes nos pés, depois de encarcerado na arca. E tendo-o assim, perguntava-lhe de cima com escarneo, se esperava ainda no santo da sua terra................................. ............................................................