Como de primero era.
Timoneda na Rosa de Amores, Fernando Wolf na Rosa de Romances, e Duran no Romancero General, n.º 258, trazem este romance typo de todos os romances de cativos. Agora pode-se confrontar a nossa lição manuscripta, aonde falta o principio e fim que justifiquem as narrações do cativo. Do Cancionero de Romances, de 1581, creio ter-se elle derivado para a tradição portugueza.
Os piratas do mar, os cativeiros de Argel, a tomada de Constantinopla pelos turcos, absorvem o sentimento e a imaginação da alma popular no seculo XVI. Ha o terror e a incerteza da aventura, quer no espirito da empreza maritima, quer nas descubertas scientificas; os sabios, os artistas e o povo andam na inquietação de uma genese prodigiosa—a Renascença. Espalham-se grandes lendas dos trabalhos e dos amores dos prizioneiros. Cervantes foi heroe; Lope de Vega, em uma das scenas mais lindas das suas comedias, appresenta a anciedade e a grandeza da abnegação na hora do resgate. Os trinitarios levam as esmolas, obtidas por meio de contos dolorosos, e pela recordação dos amigos e parentes que gemem nos ferros.
Como é possivel tanta delicadeza de sentir na alma popular? Sobretudo este final:
Ó mi padre, oh mi padre,
Deixe ir el Christiano,
Que el no me debe nada,
Debe-me a flor de mi bocca,
Dou-lh’a por bem empregada
é de um mimo capaz de fazer desesperar o mais gracioso artista. Que mysterios de amor apenas esboçados, deixados adivinhar n’estas palavras—Debe-me a flor de mi bocca? E que saudade e resignação da princeza na despedida do cativo, em que dá por bem empregada essa flor, por ser elle que a leva!