A variante do Minho,ainda que appresentada por um auctor que fez de lavra sua varias composições-rifacimentos do gosto popular, pertence ao genio anonymo, e por isso a incluimos. Lê-se na Revista Universal Lisbonense, t. III, p. 329. Esta versão distingue-se das precedentes por que é narrada impessoalmente. O nome de Helena é uma confusão de Irene ou Iria. O final estava assim truncado, mas o leitor pode completal-o por qualquer das versões da Beira Baixa ou Santarem.
48—Romance da Devota da Ermida—Foi aqui pela primeira vez recolhido da tradição oral. O cantar da criança que nasce na sepultura faz lembrar aquella ballada bretã dos Tres monges vermelhos, feita pelo povo contra os Templarios.
49—Oração do Dia de Juizo—A poesia do christianismo é inteiramente popular, como se vê pelas palavras de Sam Jeronymo: «Ecclesia non de Academia, sed de viti plebecula orta est.» Que são os Evangelhos apocryphos senão os cantos dos primeiros neophytos? O Livro dos pecados, que hade apparecer no dia do juizo, é uma tradição rabbinica e mussulmana tornada popular nos primeiros seculos da egreja, como se vê pelo Evangelho de José o Carpinteiro. Os rabbinos admittiam que era S. Miguel quem appresentava as almas a Deos. No Ensaio sobre as lendas piedosas da Edade Media, por Alfred Maury, vem um eruditissimo estudo sobre a psychostasia e o uso das balanças no Juizo final (pag. 17 a 84), que trataremos de resumir, para mostrar como a lenda portugueza é formada de tradições primitivas. Nos monumentos egypcios e etruscos se encontra este symbolismo da alma pezada em uma balança, a que alludem tambem Homero e Virgilio. Dherma na religião dos Indous, pesa as boas e más acções. Na Biblia e nos Santos Padres encontra-se esta mesma allusão metaphorica, bem como nos hymnos de Prudencio e Fortunato. Principalmente nas obras de arte da edade media, baixos relevos, pinturas e miniaturas dos manuscriptos, se encontram differentes representações de Sam Miguel pesando as almas.
Quando o diabo fazia pender a balança para o lado das más acções, era a Virgem quem fazia prevalecer o pequeno numero das acções boas, como se vê em Herm. Com. Chr. apud Eccard. Cf. Michelet, Hist. de França, p. 310. D’este mesmo sentimento se inspira o drama de Bartolo: L’Homme par devant Jesus, le diable demandeur et la Vierge defendeur. (Vid. Maury, loc. cit.)
50—Romance do Terremoto de Villa Franca do Campo—Foi este romance extraído do celebre manuscripto intitulado Saudades da terra por Gaspar Fructuoso, primeiro historiador insulano. Do cap. V, o copiou Jorge Cardoso para o Agiologio Lusitano, t. 3, p. 415.
51—Xacara da linda Pastorinha—Com titulo quasi identico publicou Garrett (Romanceiro, t. III, p. 187) uma variante dos arredores de Lisboa, em que o guapo galanteador não é irmão, nem vem preoccupado por alguma aposta. É ali incompleta, e está mal classificada; muitas outras cantilenas d’este genero temos encontrado na tradição oral, em forma de descante ou desafio. O povo só conhece na sua poesia a redondilha maior e menor; e de todas as lições que recebemos do Porto, Trás-os-Montes e Beira Baixa nenhuma trazia os versos dispostos em forma alexandrina. De todas as variantes a mais verdadeira é aquela que vem precedida de um preambulo em prosa, contando como um irmão chegado do Brazil á sua terra, antes de se dar a conhecer a sua irmã, começou a falar-lhe de amores, por aposta contra os que lhe diziam ser ella a mais esquiva de todas as raparigas do logar.
52, 53—Xacaras dos Conversados—Aqui está um quadro dos amores do povo, entre dois conversados, como é estylo de campo; a scena é bíblica; a Samaritana do poço percebe todas as allusões e responde com não menos frescura. Na versão de Penafiel, o moço pede de beber por um pucarinho novo, e tocadinho de amor. É uma expressão pittoresca, tirada do usual da vida, por que é tocando que se vê se a louça está sã. As fórmas, que o apaixonado furtivamente observa, a rosa com que symbolisa o seu desejo, e que a cantareira guarda para deixar apanhar a quem for do seu gosto, dão a este idyllio um colorido tão delicado, que a mesma naturalidade quasi que faz passar desappercebido.
54—Os Estudos de Coimbra—Este canto foi recolhido em Penafiel; pertence a genero de despique de conversados. Nas aldeas os rapazes e raparigas namoram-se por cantigas. As quadras improvisadas, lançadas ao vento, e que os viandantes escutam, são as que ficam na tradição oral, formando assim naturalmente um pequeno conto de amor.
55—Xacara do Cego andante—Garrett determina os paradigmas da presente xacara em duas balladas escossezas de el-rei James V, intituladas The Gaberlunzieman, e The Jolly Beggar (Percy’s, Reliques of ancient english poetry, Series II, book I, 10).
56—Xacara da Moreninha—Esta xacara, anda na tradição popular da Extremadura e Beira; de Castello Branco foi a versão publicada por Garrett (Rom. t. III, p. 54) «mas aproveitou-se de outras lições provinciaes o que foi necessario para lhe dar complemento.» A Moreninha tem a vantagem do ser recolhida da genuina tradição oral do Porto. O tal Frei João é tão antigo na lenda portugueza, como o Frei Jean des Entommeures do Gargantua de Rabalais, se não proveiu d’esta creação comica, foi por certo tirado das aventuras da vida claustral, que em ocio santo e beatifica estupidez era consummida. O retrato do frade da versão popular é similhante ao esboçado em Rabelais; «En l’abbaye estoit pour lors un moine claustrier nommé frère Jean des Entommeures, jeune, galant, frisque, debait, bien à dextre, hardi, adventureux, delibéré, hault, maigre, bien fendu de gueule, bien advantagé en nez, beau despecheur d’heures, beau debrideur de messes, beau descreteur de vigiles: pour tout dire sommairement, vrai moine si ouques en fut depuis que le monde moinant moina de moinerie; au reste, elere jusque ès dents en matière de breviaire.» (Gargantua, C. 27). Em algumas versões do romance portuguez descreve-se como: Frei João se levantou ’numa fresca madrugada; Rabelais diz: «Mais le moine, ne faillit onqués à s’esveiller avant la minuit, tant il estoit habitué à l’heure des matines claustrales. (Id. cap. 41.) Na versão colhida por Garrett o manteo de cochonilha, e a circumstancia dos pretos que vão buscar agua fazem a tradição portugueza do seculo XVI, e por isso contemporanea do romance de Rabelais. Nos Ineditos de Alcobaça, publicados por Frei Fortunato de Sam Boaventura, encontra-se frequentes vezes empregada a palavra gargantuice nos monumentos em prosa do seculo XIV e XV; o que prova existirem entre nós vislumbres da tradição a que Rabelais deu desenvolvimento. Na versão de Garrett não vem o milagre do calix.