57—Xacara do Soldado—Foi pela primeira vez recolhida por Almeida Garrett da tradição oral de Trás-os-Montes, aonde achou tres copias, sendo uma mais completa do que as outras. Não se encontra nas collecções castelhanas. Garrett assigna-lhe a data «pelos tempos da guerra da acclamação, isto é, por meado do seculo XVII.» (Rom. t. III, p. 167). Nos modernos contos de Don Antonio de Trueba respira-se este mesmo sentimento popular.

58—Xacara do Toureiro namorado—Foi pela primeira vez aqui recolhida da tradição oral; tem o merecimento de ser um resultado dos costumes dos dois povos da Peninsula, que se fazem notar pela paixão dos divertimentos tauromachicos. Não se encontra nada similhante nos Romanceiros hespanhoes.

59—Xacara da Tecedeira—Tem toda a desenvoltura e licença de um fabliaux francez. A influencia dos troveiros do norte da França não chegou até nós sómente pelo Arcipreste de Hita, guardado na Livraria de Dom Duarte, ou traduzido em portuguez; na alma popular apparecem de longe em longe estas reminiscencias tambem. A xacara é da Beira-Alta; Garrett porem fundiu-a dentro do romance de Dom Claros d’alem-mar (Rom. t. II, p. 192) por mera diversão artistica, porque nas lições castelhanas, d’onde as versões portuguezas se derivaram, não apparece tal situação.

60—Despedida de Lisboa—Com dois tostões venci a repugnancia de um rhapsodo popular para me dictar estas coplas. Assim ficou salva do esquecimento uma reliquia pura do sentimento das aventuras maritimas da alma portugueza. A primeira parte faz lembrar as velhas narrações dos mareantes, como se lêem na Historia Tragico-marítima. Será talvez a abertura de algum romance maritimo já obliterado na tradição? A despedida do marinheiro não é de saudade, é de sêde do goso de que se sente privado pela viagem demorada e tormentosa. Esta xacara é como um truncado florão de architectura manuelina.

61—A Freira arrependida—Estas coplas foram recebidas da Beira-baixa em duas lições fragmentadas, que mal deixavam perceber o sentimento profundo que encerram. No Manuscripto n.º 338 da Biblioteca da Universidade existe uma outra lição em letra do seculo XVII, intitulada Queixas de uma Freira, pela qual podémos coordenar as lições da Beira-Baixa. Eis um grito doloroso do povo contra a direcção monachal, que a egreja queria dar á sociedade; é um grito inspirado pelo sentimento da natureza que a Renascença veiu acordar na alma humana. Sempre uma verdade immensa na poesia do povo.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Epist. 105 Labbe, Coll. dos Concil., t. VI, col. 1559.

[2] Relação do naufragio da nau S. Bento, pag. 55.

[3] Idem, pag. 73.

[4] Idem, pag. 109.