—Não, nunca! Por uma machina! Será possivel? Vio hontem aquelle homem horrivel? Não deve abandonar-ine. Tem intelligencia, ha de achar um meio. Não é possivel que me dissesse para vir aqui hoje, com a idéa de partir. Não lhe fiz nada. Não tem motivos de queixa de mim. É naquelle navio que quer ir? Não quero. Não me deixe. Não se abre o céo para tornal-o a fechar. Digo-lhe que ha de ficar. Demais ainda não bateu a hora. Oh! eu te amo!
E unindo-se a elle, cruzou-lhe os dez dedos por traz do pescoço, como para fazer com os seus braços enlaçados em Ebeneser e com as suas mãos juntas uma oração a Deos.
Elle deslaçou aquella cadêa delicada, que resistio emquanto pôde.
Deruchette cahio assentada n'uma ponta de rocha coberta de hera, levantando com um gesto machinal a manga do vestido até o cotovello, mostrando o seu delicioso braço nú, com uma luz afogada e pallida nos olhos fixos. O bote approximava-se.
Ebeneser segurou-lhe a cabeça nas mãos; aquella virgem tinha o ar de uma viuva e aquelle mancebo tinha o ar de um avô. Tocou-lhe os cabellos com uma especie de precaução religiosa; fitou os olhos nella durante alguns instantes, depositou-lhe na fronte um desses beijos debaixo dos quaes parece que deveria abrir uma estrella, e com uma voz que tremia na suprema angustia e onde se sentia a dilaceração da alma, disse-lhe esta palavra, a palavra das profundezas: Adeos!
Deruchette rompeu em soluços.
Neste momento ouviram uma voz lenta e grave que dizia:
—Porque motivo não se casam?
Ebeneser voltou a cabeça. Deruchette levantou os olhos.
Gilliatt estava diante delles.