Proseguio no caminho.
O dia estava mais bello que nenhum outro naquelle anno. A manhã tinha um quê de nupcial. Era um desses dias vernaes em que Maio ostenta-se todo inteiro; a creação parecia não ter outro fim que dar uma festa e fazer a propria felicidade. Sob todos aquelles rumores, da floresta como da aldêa, da vaga como da athmosphera, sentiam-se uns sons de arrulho. As primeiras borboletas pousavam nas primeiras rosas. Tudo era novo na natureza, as hervas, os musgos, as folhas, os perfumes, os raios. Parecia que o sol nunca tinha sorvido. Os seixos estavam lavados de fresco. A profunda canção das arvores era cantada por aves nascidas na vespera. Era provavel que a casquinha do ovo quebrada pelo biquinho dessas aves, ainda estivesse no ninho. Ensaios de azas romurejavam nas folhas tremulas. Cantavam o primeiro canto, davam o primeiro vôo. Era uma doce conversa de todos a um tempo, poupas, melharucos, pintasilgos, barbiruivos, pardaes. Os lilases, os lyrios, os daphnes, as glycinas, compunham nas moitas uma deliciosa variedade de côres. Uma linda lentilha aquatica que ha em Guernesey cobria as lagôas de uma toalha de esmeralda. Banhavam-se as arveloas nas lagôas, onde costumam fazer tão graciosos ninhos. Via-se o céo atravez de todas as falhas da vegetação. Algumas nuvens lascivas perseguiam-se no ar ondeando como nymphas. Como que se sentia a passagem de beijos mandados por bocas invisiveis. Nenhum velho muro deixava de ter, como um noivo, o seu ramalhete de gyrofleas. Os abrunheiros sylvestres e os codeços estavam em flôr; viam-se aquelles montinhos brancos luzindo e aquelles montinhos amarellos fulgurando atravez do cruzamento dos ramos.
A primavera atirava toda a sua prata e ouro no immenso cesto rasgado dos bosques. Os pimpolhos novos eram verdes de fresco. Ouvia-se no ar um grito de saudação. Estio hospitaleiro abria a porta aos passaros longinquos. Era a hora da chegada das andorinhas. Os thyrsos dos juncos orlavam os caminhos cavados, esperando os thyrsos dos pilriteiros. O bello e o lindo faziam boa visinhança: o soberbo completava-se pelo gracioso; o grande não tolhia o pequeno; não se perdia nenhuma nota do concerto; as magnificencias microscopicas estavam em plano proprio naquella vasta belleza universal; distinguia-se tudo como n'uma agua limpida. Por toda a parte uma divina plenitude e um entumecimento mysterioso faziam advinhar o exforço panico e sagrado da seiva em acção. O que brilhava, brilhava mais; o que amava, amava melhor. Havia um hymno na flôr e uma irradiação no ruido. Escutava-se a grande harmonia diffusa. O que começava a despontar procurava o que começava a surdir. Uma turvação, que surgia debaixo, e vertia tambem de cima, agitava vagamente os corações, corruptiveis á influencia espessa e subterranea dos germens. A flôr promettia obscuramente o fructo, todas as virgens scismavam, a reproducção dos seres, premeditada pela immensa alma da sombra, esboçava-se na irradiação das cousas. Era o universal noivado. A vida, que é a esposa, abraçava o infinito, que é o esposo. O dia estava claro, formoso, e ardente; atravez das sebes, nas cercas, viam-se rir as crianças Algumas jogavam a palheta. As macieiras, os pecegueiros, as cerejeiras, as pereiras, cobriam os vergeis com os seus grossos tuffos pallidos ou vermelhos. Na relva, as primaveras, as pervincas, as mil-folhas, as margaridas, os amaryles, os jacinthos, as violetas e as veronicas. As borragens azues, os iris amarellos, pululavam, com as bollas estrellinhas côr de rosa que florecem sempre aos bandos e que por esse motivo chamam-se as companheiras. Animaculos dourados corriam por entre as pedras. O sayão florescente purpureava os tectos das cabanas. As operarias das colmeas andavam por fóra. A abelha trabalhava. A extensão estava cheia do murmurio dos mares e do zumbido das moscas. A natureza, permeavel na primavera, estava humida de voluptuosidade.
Quando Gilliatt chegou a Saint-Sampson, ainda a maré não enchera e elle pôde atravessar a praia a pé secco, desapercebido por traz dos cascos de navios no estaleiro. Um cordão de pedras chatas, postas de espaço a espaço, auxiliava a passagem.
Gilliatt não foi observado. O povo estava do outro lado do porto, perto da sahida, junto á casa de Lethierry. Ahi andava o nome delle, de boca em boca. Fallava-se tanto delle que o não chegavam a ver. Gilliatt passou escondido de algum modo pelo proprio rumor que causava.
Vio de longe a pança no lugar onde a amarrára, com o cano da machina entre as quatro correntes, com um movimento de carpinteiros trabalhando, lineamentos confusos de pessoas que iam e vinham de um para outro lado, e ouvio a voz tonante e alegre de mess Lethierry dando ordens.
Metteu-se pelas ruelas dentro.
Não havia ninguem por traz de Bravées, toda a curiosidade convergia para a frente. Gilliatt tomou o atalho que costeava o muro baixinho do jardim. Parou no angulo onde estava a malva sylvestre; tornou a ver a pedra onde costumava sentar-se; tornou a ver o banco de Deruchette. Olhava para o chão da alameda onde vio abraçarem-se as duas sombras, que tinham desaparecido.
Foi caminho. Galgou a collina do castello do Valle, deceu-a, e dirigiu-se para a casa mal assombrada, onde morava.