Na estação do Cruzeiro, onde desde largos annos—ia dizendo seculos—imperam o porte dominador, a alentada bengala, a energica gesticulação e as barbas medieváes e enchumaçadas do major Novaes, entrou uma familia, regressando de Caxambú.
Páe, mãe, bastante moços, esta ainda vistosa, bonita, um filho, de 12 para 13 annos, visivelmente doente, duas creadas, uma branca, outra preta, e um molecóte vestido de pagem, muitas malinhas de mão, chales, cobertores, travesseiros, garrafas de leite e aguas mineraes, embrulhos com restos, sem duvida, da matolotagem, comida á descida da serra.
Tudo aquillo ás carreiras se arrumou nos bancos vazios ao lado e ao redor de mim.
Afinal, apitou a machina e partiu o barulhento comboio.
Cançado de ler, exgotados os jornaes de S. Paulo, parcos de novidades, e um tanto aborrecido com um romance de Charles Merouvel comprado no Garraux, que não me interessava, nem merecia interesse, puz-me a observar os recem-chegados.
No rosto de todos, a inquietação, concentrada no menino que, apenas sentado, pedira para se deitar.
—Sinto-me tão fraco! exclamou dolente. Não tenho mais forças!...
E com muita solicitude, creadas e molecote, auxiliando apressados os amos e obedecendo-lhes ás indicações, arranjaram os meios de dar melhor commodo ao doentinho, cujos pés ião além do banco e se retrahiam de cada vez que passavam os empregados do trem.
Sim, doente, muito doente até. E tão sympathico, tão meigo, uma expressão de tanta doçura na physionomia, nos olhos bem rasgados, pestanudos, negros, scintillantes, mais do que ha vida normal, uns olhos de soffrimento e febre!... Os labios como que reviam sangue, de tão rubros; em compensação, as orelhas, muito grandes, desgraciosamente apartadas, da cabeça, umas orelhas desmarcadas, como as do mallogrado Napoleão IV, mostravão-se brancas, diaphanas, num gráo de deploravel e significativo descoramento.
Impressionaram-me logo de principio os modos e as observações do menino.