A cada momento, sorria para os pais com immensa ternura, repassada de melancolia, ainda que n’essa continua e commovedora caricia transparecesse a vontade de lhes incutir coragem e esperanças.
—Apezar de tudo, disse todo superexcitado, estou mais valente do que hontem. Assim mesmo não posso ainda estar olhando pela janella. Que pena! Tinha tanto que ver! Apenas ficar bom havemos de viajar a valer, não é? Levarei os meus cadernos de estudos e lucrarei muito. Não deve haver melhor modo de aprender do que viajar. O livro vai sempre aberto diante dos olhos... E eu, que fazia outra idéa da Mantiqueira... mais sombria, mais cheia de buracões e pedras. Tão catita, que ella é!...
E buscando outra posição, gemeu surdamente.
—Sentes muita febre, boy? perguntou a mãe com augustia.
—Muita, não... já disse á mamãe, menos do que hontem; assim mesmo tenho cá dentro um fogo!... Mas que bonita a serra desde o tunnel até ao Perequê!...
—Talvez a frialdade da agua te tivesse feito mal, observou o pai; dous copos cheios...
—Que mal, papai?! Nunca bebi com tanto gosto, nunca! Eram uns copinhos... parecia que aquella agua devia curar-me afinal...
E como que em sub-delirio:
—Que bonita a descida! Como o céo estava puro! Eu quizera poder, como um passarinho, atirar-me de cabeça para baixo, voando, voando, por cima de todas aquellas montanhas e dobras e matarias! E o sol como brilhava, com um calor tão bom, de saude; não como calor da febre! Lorena, não é, papai? lá em baixo, na varzea, uns pontinhos brancos. Quanto é boa a vida, a vida... a gente sentir-se valente, robusta... sem necessidade de tanto remedio amargo!