Nem me lembro bem como os francezes chamam esse repentino estado d’alma, a tal fulminação—meu professor de francez foi tão fraco!—Por isto não me arrisco; podia escrever alguma asneira.
—Mas quem é aquella moça? perguntava o Anselmo assarapantado, sofrego, a quantos o rodeavam.
Aquelles olhos, aquelles olhos, santo Deus! que relampagos desferiam! Por isto, quando pousaram bem em cheio no doutoréco, sentiu-se este desfallecer, todo derretido de gosto, julgando-se na obrigação de sorrir aparvalhadamente, mas a suar frio, quasi a tiritar!
X
Não dormiu toda a noite o nosso impressionavel Anselmo de Sá, a passear, agitado, pelo povoado immerso em carregadas sombras, nervoso, irrequieto, acordando o latir de um ou outro cão e fumando cigarros; a esperar, pelo que?... Por emquanto, pela madrugada, que não chegava.
De nada valiam os esplendores do céo, de um azul ferrete, negro, avelludado, profundo, como certas saphyras do oriente, céo marchetado de tantas estrellas, que o Paranahyba d’ellas colhia fantasticas fulgurações, no immenso serpear da larga corrente.
Afinal, sentiu-se o moço tão prostrado, com as pernas tão bambas, que cahiu na cama feita sobre as canastras de viagem, e passou por uma modorrasinha, mais que somno. Ás 7 horas da manhã já estava, porém, de pé. Lembrou-se então de ir banhar-se nas aguas puras do rio, a vêr se acalmava o incendio que sentia lavrar violento, inapagavel, dentro de si e o suffocava; a mente conturbada, o peito oppresso, com os musculos repuxados.
Qual! Gregorio de Mattos, sem procurarmos exemplos e approximações em litteraturas de outras terras, na tal Europa e sobretudo na França, que tanto nos avassalam, o nosso Gregorio de Mattos já disséra descrevendo identica e penosa disposição d’alma:
«Tomo banhos de neve por dentro,
Mas o fogo não quer abrandar!»