E eram banhos de neve, cousa que não existe no Brasil, tomados internamente, por cima! Como, porém, o poeta se os administrava, é o que não nos diz, nem ensina.

Fica, comtudo, a receita para os apaixonados em tão melindrosas circumstancias.

Nem de proposito, fôra Anselmo mergulhar o ardente corpo no banheiro habitual da ciganinha, á sombra do salgueiro que tantos primores costumava entrever de soslaio... Calculem só... De certo, a arvore foi discreta, mas quem sabe? é tão singular, inexplicavel, mysteriosa, a força catalytica, a acção de presença? Que prodigios não operam no seio da natureza esses elementos mudos, impassiveis e inalteraveis?...

Qualquer que seja a causa, o pobre do rapaz sahiu d’aquella immersão peior do que quando penetrára na agua tepida, ennervante, voluptuosa em suas amornadas caricias. Tinha chammas nas veias.

Vestiu-se ás pressas e com o cabello grudado ao casco da cabeça, portanto meio ridiculo para um pelintrote de S. Paulo, resolveu ir bater á porta de D. Cula, orientado por um meninosinho, a quem generosamente deu 200 réis em nickel.

Sem demora lhe appareceu a visão celeste! nem mais, nem menos, de repente, a Gêgéca, que lhe dardejou logo dous olhares de revirarem de catrambias para o ar, não um simples bacharelete, mettido em paletot sacco, de sarja verde fundo de garrafa, porém sim, com toda a sua armadura de ferro, Roldão em pessoa, o sobrinho querido do imperador, Carlos Magno, ou algum dos Doze Pares de França.

—Que deseja, Sr. doutor? perguntou a rapariga sorrindo com encantadora ingenuidade, mas devéras surpresa e lisongeada d’aquella visita matinal.

—Venho... venho, balbuciou o Anselmo quasi estarrecido de tanta belleza matutina, venho... encommendar á... senhora sua mãe... Não posso falar... com ella? Cousa... urgente...

—Está ainda dormindo, replicou a ciganinha muito despachada.