Mas, demonio, ó filha d’aquelle diabo que tanto surrára a desgraçada D. Cula, basta de atarantar mais o Sr. bacharel! Para que esse sorriso enigmatico, para que esse bater languido de folhudas pestanas? Deixa, pelo menos, o moço dizer o que quer, que encommenda era essa, tanto mais que um raio ironico do sol ao nascedouro lhe brincava nas barbas ainda incipientes, na ponta do nariz e no seu pince-nez de myope!

Era comtudo, exacto. D. Cula, com os habitos de inveterada preguiça goyana, ou antes sertaneja, ou melhor brasileira (fiat justitia ne pereat mundus, diz o direito estudado, ou não estudado, pelo Dr. Anselmo de Sá) D. Cula, apezar do calor, estava áquella hora encafuada na cama, o tal catre velho, de que fala o capitulo I d’esta historia verdadeira.

—Não... não a encommode, implorou Anselmo com verdadeira angustia, como se da repulsa de sua supplica pudessem provir grandes damnos. Quero... a senhora... per... perdõe... Quero para a viagem... um taboleiro de doces.

E ficou assombrado da repentina idéa que lhe illuminára o cerebro; dominado, porém, pelo terror de que o tal taboleiro de doces fosse cousa tão fóra de alcance como o vélo de ouro, ou algum pomo do jardim das Hesperidias.

Tranquillisou-se de prompto.

—Hontem mesmo á noite fizemos um bem grande, replicou Gêgéca. O senhor volte logo para ajustal-o com mamãe.

Ia humildemente, todo soffrego, perguntar a que horas; mas não teve tempo, Pan! A ciganinha lhe batera com a porta na cara.

Já se viu o capricho?

Atraz dessa porta trancada, ficou ella comtudo pensativa, de sobrancelhas um tanto cerradas. Vamos e venhamos, aquelle mancebo tão alvo, de bigodinho revirado, pince-nez de ouro, mãos e pés delicados, maneiras finas, trage elegante, lhe agradava devéras, não lá exaggeradamente, cousa extraordinaria; mas, emfim, esse não era, de certo, como os outros, oh não!

—Que ha de novo, ménina? perguntou de um canto a voz arrastada de D. Cula, entre dous bocejos.