—Muito não... uns quarenta dias. Nem o senhor imagina como boy era forte e são... dormia como um chumbinho... bom appetite sempre, ávido de movimento... Boy não parava... travesso como um cabritinho, muito bomsinho porém, sempre...

E boy isto e boy aquillo. Chamava-o assim desde creancinha. A madrinha, muito dada a leituras inglezas, lhe puzera esse appellido familiar...

—De que não gosto nada, interrompeo o menino com engraçada seriedade. Eu me chamo Alberto.

Mas a mãe continuava:

—Haviam feito, no mez anterior, um passeio fatal á chacara de uns amigos para os lados do Jardim Botanico, elle se agitára de mais com os camaradas n’umas correrias sem fim, se resfriára...

—Brincaram perto de uma valla aberta de pouco, explicou o pai...

—Á noite, perturbação de digestão, e desde ahi uma febre tenaz, rebelde, que nada pudera atalhar. Tomára já quinino... um desproposito!... um horror!... Depois continuas mudanças, Gavea, Engenho Novo, Cascadura, Barbacena, Caxambú, tudo sem resultado...

—Não ha tal, contradictou o pequeno, já estive peior... É não desanimarmos. Olhem, façam tudo para não me deixarem morrer... Tenho tanto que aprender e estudar!... Que atrazo este tempo todo em pura perda! Como o Cardoso e o Souza devem ter-se adiantado nas aulas!... Quando é que hei de pegal-os agora?...

Não pensava n’outra cousa, ia-me dizendo a mãe, emquanto as lagrimas, como que já por habito, lhe corriam a fio. Tão boa creança, tão estimada de todos, estudiosa... tanto estimulo! Uma ambição insaciavel de saber... Muitas vezes se levantára ella da cama para apagar-lhe a véla e fazel-o deitar-se... Ardendo em febre, pedia os livros, queria seguir as lições, ouvir os professores... Nunca se vira cousa igual... Tirára já bonitos premios... livros muito dourados, com gravuras...

—Já mamãe está falando de mim, interrompeu Alberto com ligeiro tom de reprehensão. Este senhor ha de desculpar... é de todo a mãe. Não sou melhor do que tantos outros...