—38° e 8, respondeu o pai. Hoje, bem melhor do que hontem, pois a esta hora Alberto tinha 39 e 2.

Via-se, porém, que encobria a verdade, pois destoavam as aquietadoras palavras com o ar de desalento que simultaneamente se lhe estampava no rosto. Ao guardar o thermometro no estojo de metal, fez-me imperceptivel signal.

Levantei-me e fingi que ia refrescar o rosto no cubiculo ao lado, poeirento e sujo toilette do vagão.

D’ahi a pouco, chegava o homem.

—39 e 8, foram as suas primeiras palavras, pontuadas de terror.

E, acabrunhado, poz-se-me a contar o caso, banal, diario, tão commum, mas sempre pungitivo da sua immensa desgraça. Esse menino, a alegria da sua vida, a vida da sua mulher, ricos elles, sem mais objectivo algum na existencia. Agora, aquella febre invencivel, que zombára de tudo e lhes estava matando a adorada creança, debaixo dos olhos, dia por dia, hora por hora. Mudem de ares, era o incessante conselho dos medicos; o recurso unico que lhes restava. E não faziam outra cousa; de um lado para outro, semanas inteiras. Para onde mais ir? E os terrores em logares distantes, ermos, sem recursos, sem para quem appellar, quando vinham accessos de estupenda violencia!...

Ao tomar então nos braços o filho, parecia que o tirava de um brazeiro... queimava... Como poderia por mais tempo resistir organismo tão delicado?... Que cruel expiação era essa? E expiação porque? Afinal, nem elle, nem a mulher tinham culpas ou crimes a pagar? Porque os esmagava, tão dura, a mão de Deus? De que o accusava a justiça eterna? Confessava ter sido sempre bastante orgulhoso dos haveres herdados e sobretudo d’aquelle filho tão perfeito... Mas quem o fizera assim? Não fôra a propria natureza? Casára-se por amor com uma moça pobre, rejeitando propostas de enlaces ricos. Nunca se arrependera, porém... haviam, até pouco, sido tão venturosos! Parecia que a felicidade era um crime. A vida devia ser triste, agoniada, passada em lagrimas e travada de amargos desgostos...

E ao dizer tudo isso, apezar de violento esforço, tinha as palpebras molhadas. Via-se que aquelle homem soffria cruelmente, sobretudo na altivez innata, ao ter que abrir o peito, por irresistivel impulso, a um desconhecido que arvorava, na conturbação da sua dor, em amigo e amigo intimo.

Pouco se importára, a principio, com a tal febre, não pelas affirmações, sempre tranquillisadoras, dos muitos medicos consultados, a mestrança, porquanto, graças a Deus, podia pagal-os generosamente; mas afigurava-se-lhe impossivel, fóra de toda a ordem, lei e justiça, que a vida do seu Alberto pudesse perigar. Nem de leve lhe passára isso pela mente... nunca!...

Um menino destinado a tanta cousa! Havia de ser, por força, homem excepcional, conquistar as mais altas posições no Brasil, dando prestigio á enorme fortuna que lhe estava destinada... Herdeiro universal do avô riquissimo, com duas tias solteironas, de que era o ai-Jesus, ambas com muitas posses, quem podia contar com futuro mais brilhante?... Elles, os pais, tinham de renda mensal nada menos de cinco contos e gastavam-na com regra e prudencia, fazendo ás vezes apertadas economias, para que o Alberto na sua carreira politica jamais se preoccupasse com o dinheiro, encontrando-o sempre, sempre á mão... Tudo isso, tudo seria debalde? Arredava do espirito a possibilidade de irremediavel desastre... mas...