Fosse lá algum mariola dizer que a Babita tinha cabellos pretos como aza da graúna e tão compridos que passavão alem do quadril talvez um palmo, olhos que mechião com a gente só no revirado, nariz pequeno, boquinha como se acabasse de comer pitangas, fosse dizer que a sua cintura era de maribondo, o seu andar engraçado e faceiro como andar de moça da côrte, e havia de ter que fazer com a velha, boa pessoa no trato quando estava para conversas, mas zangada de uma vez nos dias de seus azeites.

E querem vêr?

Uma tarde, a menina estava tomando fresco n’uma janella e D. Cula cozendo perto de outra, por detraz da rotula fechada, porque a casa tinha duas janellas e uma porta, por signal que tão juntinhas que não davão para um portão largo. N’isto passa um mocinho, filho de um capitão da guarda nacional e, tirando-se de seus cuidados, pedio, nem mais nem menos, um beijinho ao jambo corado—assim chamou o desavergonhado a carinha da moça.

Babita recuou toda vexada, mas quem pulou como uma çuçuarana foi D. Cula.

Sem pensar no que fazia, passou a mão n’um cabo de vassoura, escancarou a porta e cahio de pauladas no costado do engraçado que não foi um brinquedo. Em vão o moço quiz fugir, em vão resistir; só parou a sóva quando o páo se quebrou e por cima levou elle com os pedaços na cara.

E lá se foi o gaiato sem chapéo e com a nizia rota, acompanhado de uma vaia de conta que lhe passárão uns meninos da vizinhança e tres camaradas de tropa que assistirão áquelle merecido castigo.

Tambem depois d’esse, ninguem mais se lembrou de dizer graçolas a Babita, bem que todos os dias ella fosse tomando cada vez mais corpo e ficando de pôr agoa na boca.

Tinha n’esse tempo dezesete annos, e já déra de tábua a tres pessoas de consideração.

D. Cula lhe fallára com verdade e muito assento, mostrando que era preciso tomar estado, que ella nem sempre havia de estar n’este mundo para dar-lhe amparo, que emfim mais valia uma rapariga mal casada do que bem requestada.

Porque não havia ella de aceitar o Chico Luiz, que estava já arranjado em seus negocios, tanto assim que tinha sociedade com o Tinôco, de quem a principio fôra caixeiro? Homem de meia idade, mas de boa figura, procedêra sempre como pessoa de bem que merece dos outros amizade e confiança.