—Ah! estou que você não reparou, mas eu cá ainda tenho bons olhos. Quando um moço gosta sériamente de uma rapariga que lhe póde servir de mulher diante de Deus e dos homens, sem ter que se avexar de ninguem, deve vir com sinceridades e não fazendo modos de inquietar o descanso dos outros....
—Mas ninguem me anda desinquietando, interrompeu Babita meio arrufuda.
—Máo, pensou lá comsigo D. Cula, a menina está mordida...
E alto continuou:
—Eu não me refiro a você: fallo no geral... e, já que estou com a mão na massa, quero lhe dar alguns conselhos. Os homens, minha filha, são muito enganadores e do que menos se importam é da honra e do socego das mulheres. Deitão uns olhos de peixe morto, revirão o coração de uma probresinha e, quando não a atirão de uma vez no caminho da perdição, mettem na boca do mundo que ella é assim, é assada e não sei mais o que. A cousa começa sempre por brincadeira: a gente olha sem pensar em mal: acha graça no namôro e depois, minha cara, quando menos se cuida sente-se cá dentro no peito uma afflicção, um tormento que não pára nem de dia nem de noute. Então se a mulher não tiver juizo, não sabe mais o que ha de fazer. Tudo é soffrimento tudo é enjôo e desgosto, menos a vista do tentador. E elle a se rir e como cobra traiçoeira esperando de longe com a boca aberta, que a rãsinha se chegue por si mesma...
Babita durante todo esse sermão em que a mãe contava talvez uma historia do que outr’ora se havia dado com ella, estava sem saber onde pôr os olhos, toda vendida e com as maçãs do rosto vermelhas que nem bagas de aroeira.
A final, sem dizer palavra, mas abrindo n’um pranto de chôro, atirou-se ao collo da mãe, escondendo a cara com as mãos.
D. Cula não mostrou a menor admiração: pelo contrario beijou com muito carinho a testa da filha.
—Eu bem sabia, disse ella, que você já não era como dantes. Mas não se afflija. Aquelle moço tem bom nome, e eu vou me entender com elle. O peior era você querer esconder que o seu coração já tinha acordado.