—Mamãe, balbuciou Babita, não... sei... como... foi... Mas ninguem desconfia.

—É sempre assim, secundou D. Cula. A gente está desprevenida e da noute para o dia fica-se outra e presa para toda a vida. O tal rapaz é tropeiro: não digo que seja bom officio, mas tambem não é de fazer vergonha a ninguem. Quem trabalha é sempre merecedor. Nós por nosso lado não somos filhos de capitão-mór, nem de juizes de fóra; o que podemos desejar é que seja de familia limpa, porque graças á Nossa Senhora Santissima, e a S. Joaquim avô de Nosso Senhor, você conheceu o seu pae, que Deus lhe dê a gloria, e nós dous, elle, hoje no reino do céo e eu cá n’este valle de lagrimas, tambem tivemos esta felicidade, tudo assentado nos livros do Revm. Vigario; d’ahi para cima não posso dizer mais, mas emfim nem todos podem dizer tanto...

Foi então que D. Cula se metteu n’um sipoal de palavreado, d’onde só sahio quando lhe faltou a respiração.

Em todo o caso, ella no dia seguinte se embrulhou na sua manta de sahir, uma manta côr de fundo de garrafa que lhe ia até os pés e que tinha na altura dos hombros umas especies de dragonas de retroz preto, fincou um pente alto no cocuruto da cabeça, e lá foi ter ao rancho onde estava de pouso a tropa de Juca Ventura.

Justamente tinha este de madrugadinha partido com o seu lóte de bestas para esperar os companheiros d’ahi a vinte legoas no caminho de Goyaz.

—E quando estará de volta? perguntou meio descorada D. Cula.

—Quem sabe se d’aqui a dous pares de semanas, respondeu um outro tropeiro.

Ao voltar para a casa, a coitada da mãe ia remechendo no seu espirito cousas bem tristes. Havia sido o que ella suppunha: o tal sujeito era como os outros. E a sua Babita, a Babita do seu coração, já enamorada, não ia soffrer, se magoar, ficar magra e doente, e quem podia dizer o que mais?

Malditos homens que vem bolir por maldade com as mocinhas e pôr as casas de familia em dobadoura!

D. Cula não disse á filha a verdade.