Ribeiro (apressadamente).—Sim... ter um nome celebre, conhecido... ouvir a boca da fama apregoar os nossos triumphos, nossas façanhas... vêr-se apontado... sentir o nosso amor proprio docemente lisongeado... Então tudo isso de nada vale? Olhe, palavra de honra: eu quizéra agora, n’este momento, ter só uma côdea de pão duro que roer, comtanto que tivesse a certeza de que o nome de Manoel Ribeiro enchia os quatro cantos do universo... Pintar um quadro immenso... escrever um poema em cincoenta cantos ou um romance em trinta volumes... compôr uma marcha solemne para oitocentos e cincoenta professores (com muito fogo) hen? Que satisfação!... Como se deve ficar cheio!... Isso sim... isso é viver. Tudo o mais não passa de um penoso vegetar, como se a gente fosse simplesmente um páo de ipé ou de peroba... Para tudo aquillo é que eu nascera:... entretanto...

Fonseca.—Entretanto?

Ribeiro.—Desde os meus primeiros annos vi contrariada a minha vocação... Nasci na opulencia, cresci na riqueza, fui obrigado a cuidar de meus bens, a augmental-os, e com esses cuidados materiaes lá se foi extinguindo o fogo sagrado que em minha mente ardia, e que a miseria e o desgosto terião feito medrar como chamma devoradora...

Fonseca.—Eu o acho, Sr. Ribeiro, poeta de mais...

Ribeiro (com ar desabusado e puchando o beiço).—Eu poeta?... Aos cincoenta annos... depois de trinta de casado e bem casado?!... Já com uma filha em estado de tomar estado?!... Você então não conhece o poeta!... Poeta é um moço pallido, macerado de vigilias, namorador das estrellas, apaixonado louco de quanta mulher encontre, versejador em cima das fogueiras da inquisição ou espetado n’uma bayoneta, choramigador de desgraças por que nunca passou... de cotovelo rôto e chapéo amassado (parando de repente e com satisfação). Sinceramente agrada-me esta descripção... fui feliz devéras. (Mudando de tom) Se o poeta fôr velho então é philosopho... ou calvo como um urubú, ou possuidor de guedelha inculta e rebelde... unhas compridas, olhar desvairado, cantará as delicias da mocidade, que outr’ora lhe parecêra atroz, e desesperará da salvação da humanidade. Mas, no meio de tudo isso, como a gente sente o coração bater! Quantas alegrias, quantas doçuras nas privações... No juizo dos outros não passa de um infeliz... mas no intimo o poeta não troca as suas illusões pela fortuna de um principe... de um nababo...

Fonseca.—De um Ribeiro... maganão!

Ribeiro (sorrindo-se meio resignado).—Que quer você? Não tenho outro meio de me celebrisar... Custei a consolar-me... custei!... Tambem não estaria casado... não teria uma filha que é preciso dotar... Uma vez nestas condições é melhor... que eu possua algum dinheiro nos bolsos do que muitos versos na cachola. (Rindo-se, approxima-se de Fonseca a piscar um olho) Que diz, Snr. Fonseca? O senhor pensa tambem assim, não é? Diga com franqueza...

Fonseca.—De certo os encargos de familia...

Ribeiro (abanando a cabeça com ar fino).—Não é só por isso!.. É tambem por aquelle maganão... aquelle seu sobrinho... Que rapaz feliz!

Fonseca (com repentino enthusiasmo).—Que actividade!