—E não ha mais ninguem em casa? inquiriu o outro.
Mostrou o anão, com singular expressão de orgulho e despeito, que alli estava elle e deitou um olhar de colera para o imprudente curioso.
—Bem, replicou Cyrino sorrindo-se, vá você então dizer á sinhá dona, que já chegou a hora de tomar o remedio. Trago o vinho, e é preciso quanto antes preparar café.
Desappareceu Tico, fazendo um aceno ao intitulado medico para que esperasse fóra.
—Ora, exclamou este com aborrecimento e tom de chacota, aqui ao sol?... Não está má esta!... E que tal o mestre nanica?...
Sem mais cerimonia entrou, pois, na casa, penetrando no quarto que ficava entre a cozinha, theatro da actividade de Maria Conga e a sala de jantar, onde se dera a apresentação de Meyer a Innocencia.
Dahi a pouco, ouviu passos arrastados e aos seus olhos mostrou-se Innocencia embrulhada em uma grande manta de algodão de Minas de variegadas côres e com os longos e formosos cabellos cahidos e puxados todos para traz. Os grandes e avelludados olhos orlados de fundas olheiras, e o quebrantamento do semblante, muita fraqueza denunciavam ainda; entretanto, as setinosas faces como que se apressavam a tomar côres, a semelhança de rosas impacientes de desabrochar e expandir-se vivazes e alegres. Ao chegar à porta, não a transpoz; mas encostando-se á grossa trave que fazia de umbral, alli ficou parada, indecisa, com o olhar turbado e esquivo.
Ao vel-a, deu Cyrino com timidez alguns passos ao seu encontro; depois, por seu turno estacou junto a uma cadeira de comprido espaldar, antigo e solido traste trazido por Pereira da sua casa de Piumhy.
Após longa pausa, em que por vezes se cruzaram incertos os olhares, perguntou com esforço:
—Então ... minha senhora ... como está?... Sente-se melhor?