—Appareceu-me o Mochú muito contente com a sua caixa, como se tivesse o rei na barriga. Era uma immundicie de besouros, cascudos e cigarras, que o Sr. nem póde imaginar... Havia de tudo; depois, quando voltamos da roça, enxergou elle num pau podre um aniceto vermelho e foi correndo a apanhal-o. Eu bradei-lhe:—Olhe, que ahi tem barranco: a arvore é podre e oca, e vosmecê rola pelo despenhadeiro, que nem a sua alma se salva.—Qual! O homem é teimoso, como um cargueiro empacador... Eu gritava-lhe:—Tome tento, Mochú!—Sem attender a nada, começou a caminhar em cima da cipoada que cobria a boca de um percipicio, fundo como tudo neste mundo... Quando ia botar a mão no tal bicho encarnado, encostou-se ao pau e ... zás! ... afundou-se, dando um grito esganiçado que parecia de cotia. Mal teve tempo de agarrar-se aos cipós e lá ficou entre a vida e a morte, chamando Júque, Júque!... Eu quando vi isso, mandei a toda a pressa buscar á roça uma vara comprida e, se ella não chega logo, o Sr. Meyer e toda a sua bicharada rolavam de uma vez por aquelles fundões.

—Não, rectificou o allemão, bicho rolou; caixa abriu e tudo lá se foi no fundão...

—Pois bem, o Mochú segurou-se com unhas e dentes ao páo e nós puxámos devagarinho, devagarinho, com um medo, um medo!... Maria Santissima!...

Fazendo breve pausa:

—O mais engraçado ainda não chegou, avisou o mineiro: Ah! vosmecê vae tomar uma boa data[83] de riso. Quando o Mochú ganhou pé em terra, pôz-se a pular como um cabrito doido, por aqui, por acolá, pulo e mais pulo, e gritando como se o estivessem esfolando... Estava ... ah! meus Deus! ... estava cheio de formigas novatas![84]

—Sim, exclamou Meyer com desespero, formiga de pau podre! ... mein Gott... Eu rasgo a roupa ... eu pulo ... eu gemo ... fico nú como quando minha mãe me botou no mundo!... Horrivel... Formiga do diabo!... Faz calombo em todo o meu corpo... Muita dor!...

Com reiteradas e estrondosas gargalhadas acolheram Pereira, Cyrino e José Pinho essas energicas imprecações.

—Poderá isso, observou o mineiro, cural-o da mania de não ouvir os outros que conhecem as coisas.

E voltando-se para Cyrino:

—Verdade é que o corpo delle... Que corpo. Sr. doutor, tão arco! ... ficou todo empolado que foi preciso esfregal-o com folhas de fumo. Depois, tomou um banho no ribeirão...