Vinha só e, no momento em que damos começo a esta singela historia, achava-se no bonito trecho de caminho que medeia entre a casa de Albino Lata e a do Leal, a sete boas leguas da sezonatica e decadente villa de Sant'Anna do Paranahyba.

Nesta porção de estrada, ensombrada pelas arvores de vistoso cerrado, o leito, ainda que já bastante arenoso, é firme e parece mais álea de bem tratado jardim, do que caminho de tropas e carreadores.

Ainda augmenta os encantos daquelle lance a innumera quantidade de rolas caboclas a brincar na areia e de pombas de cascavel, cujo bater de azas produz um arruido tão caracteristico e singular.

O nosso viajante, se caminhava distrahido e meio pensativo, não parecia, comtudo, de genio sombrio ou pouco divertido.

Muito ao contrario, sacudia ás vezes o torpôr em que vinha e entrava a cantarolar, ou assoviar, esporeando a valente cavalgadura, que na marcha que tomava ia abanando alternadamente as orelhas com o movimento cadencial da cabeça.

N'uma dessas reacções contra alguma preoccupação, disse em voz alta, puxando por um relogio de prata, seguro em corrente do mesmo metal:

—Ás duas horas pretendo sestear no paiol do Leal. Falta pouco para o meio dia, e tenho tempo diante de mim a botar fóra...

Moderou, pois, a andadura que levava o animal e mais activamente recomeçou a zurzir os galhos das arvores bocejando de tedio.

Tambem pouco tempo caminhou só, por isto que em breve ao seu lado emparelhou outro viajante, escanchado n'um cavallinho feio e zambro, mas muito forte, o qual, coberto como estava de suor, mostrava ter vindo quasi a galope.

Homem já de alguma idade, o recem-chegado era gordo, de compleição sanguinea, rosto expressivo e franco. Trajava á mineira e parecia como realmente era, morador daquella localidade.