—Volto. Se a noite me pegar em caminho, ficarei no pouso das Perdizes.

—É verdade: lá ha uma tapera. Mas o Sr. não tem medo de almas do outro mundo? Dizem que o tal rancho velho é mal assombrado.

—Eu?! exclamou o infeliz. Só tenho medo de mim mesmo. Quizesse um defunto vir gracejar um pouco commigo, e de agradecido lhe beijava os dedos roidos dos bichos. Olhe, Sr. Pereira, continuou com voz um tanto alta e agoniada, não levo a mal o senhor não me convidar para entrar em sua casa; não, no seu caso, havia de fazer o mesmo.

—Oh! Sr. Garcia! quiz protestar Pereira.

—Nada;... digo-lhe isto do coração... Na minha familia, sempre tivemos nojo de lazaros... Sou o primeiro... O Sr. nem imagina... Vivi muitos annos meio desconfiado... A ninguem contei o caso... De repente, arrebentou o mal fóra. Já não era mais possivel enganar nem a um cégo... Ah! meu Deus, quanto tenho soffrido!...

—Permitta Elle, interrompeu Pereira em tom compassivo, que este doutor tenha algum remedio... Bem vê ... ás vezes...

—Curar a morphéa?! replicou Garcia com sorriso pungente de sarcasmo. Não ha esse pintado ... que em tal pense...

—Então para que quer ver o medico?

—Só para uma coisa... Saber pelos livros que elle tem lido e pelo conhecimento das molestias, se isto pega... É só o que quero... Porque então fujo de minha casa... Desappareço desta terra ... e vou-me arrastando até tombar nalgum canto por ahi... Dizem uns que pega ... outros que não ... que é só do sangue... Eu não sei.

E, abanando tristemente a cabeça, apoiou-se ao tosco sellim.