—Mas, quem lhe disse que vivo pensando em mecê?

—Innocencia, implorou o moço, não queira negar; vejo que sou amado...

—Sempre amar! observou ella, mais para si do que para quem a ouvia. No anno que já passou e por occasião da Sra Sant'Anna[100], aqui vieram umas parentas minhas e caçoaram commigo, porque eu não as entendia: tanto assim que uma dellas, a Nhã Tuca, me disse: «Deveras, mecê ainda não gostou de nenhum moço? E eu respondi: Não assumpto[101] o que mecê estão a prosear.» Aquillo era certo, e tão verdade como estar nosso Deus no paraiso... Hoje...

—E hoje?

—Hoje? repetiu a moça. Quem sabe se não era bem melhor não ter nunca gostado de ninguem?

—Isso não está na gente... É ordem lá de cima...

—Emfim, se for destino, que se cumpra.

Conservava-se Innocencia ainda um pouco arredada da janella, de modo que Cyrino, para lhe falar baixinho, tinha o corpo inclinado do lado de dentro. Segurava as mãos da namorada e puxava com doce violencia, quando mostrava querer afastar-se.

Era o ardente colloquio dos dois cortado de frequentes pausas, durante as quaes se embebiam reciprocos os olhares carregados de paixão.

—Deixa-me ver bem o teu rosto, dizia Cyrino a Innocencia. Para mim, e muito mais bello que a lua e tem mais brilho que o sol.