—Mas, continou o moço a custo e parando em cada palavra, penso que num ponto tem elle alguma razão... É quando ... lhe deu ... conselho ... que o senhor não casasse sua filha ... assim ... sem perguntar a ella ... se ... emfim não sei ... mas talvez o Manecão lhe não agrade...
Ergueu-se Pereira de um pulo e, approximando a face, repentinamente incendida de colera, junto ao rosto de Cyrino:
—O que? exclamou com voz de trovão, eu ... consultar minha filha?... Pedir-lhe licença ... para casal-a?... O senhor está doido?... Ou está mangando commigo?... Ai ... que tambem...
E vago lampejo de desconfiança lhe illuminou a chammejante pupilla.
Comprehendeu logo Cyrino a perigosa situação e, sem demora, tratou de desfazer a má impressão que produzira.
—Ah! disse com fingido riso, é verdade... Isto são costumes da cidade ... aqui, no sertão, ha outros modos de pensar... Desculpe-me, Sr. Pereira, este Meyer é que está a confundir-me todas as idéas. Pois eu julgo ... já que pede a minha opinião, que o senhor deve continuar a ter olho no estrangeiro ... e eu heide ajudal-o, quanto estiver nas minhas forças.
—Tambem agora, disse o mineiro depois de ligeira pausa, não hade ser por muito tempo... Ha mais de um mez que elle aqui pára e já me ... contou que breve seguia viagem para Camapuan... Desenganou-se afinal... O tal meco não chegará até lá ... mas é o mesmo. Um destes dias, leva por ahi algum tiro para lhe botar juizo na cachola, ou alguma facada que lhe ponha as tripas á mostra... Nem sempre ha de ter cartas de irmão para sahir-se bem da rascada... O diabo o leve para longe!... Voltemos, Sr. Cyrino... Já demais temos deixado o bicharoco sósinho.
E encaminhou-se para a vivenda, acompanhado de Cyrino. Ia este desalentado; na realidade, bem rentes lhe ficavam cortadas as esperanças que haviam animado na tentativa de opposição ao projectado casamento da amada com o terrivel e fatal Manecão.
Ainda a meio do caminho, voltou-se Pereira e disse-lhe peremptoriamente:
—Deveras, Sr. Cyrino, aquellas suas palavras me buliram com o sangue todo... Ainda o sinto galopar nas veias... Que ideias esturdias!... Que lembrança! Ah ... a tal vida das cidades ... cruzes!