—Sempre as suas desconfianças! observou Cyrino.

—Desconfianças, não: agora, certeza. Pois o que quer dizer o homem todo o dia ... estar a lembrar-se da menina é... Procurar trazel-a á conversa?—Como está sua filha? pergunta-me elle sempre.—Está boa, de uma vez para todas. E elle, toda a vida a insistir... Isto me põe o sangue a ferver, mas vou-lhe respondendo com bom modo... Hoje, saiu-se o cujo de seus cuidados e disse-me como quem toma leite com farinha de milho[104]:—Sua filha vae casar?—Vae, respondi-lhe todo trombudo.—Com quem? Tive vontade de lhe dizer: Não é da tua conta, seu bisbilhoteiro, seu biltre, e atacar-lhe uma cabeçada, mas, como é meu hospede, secundei-lhe enfarruscado: Com um homem do sertão que hade amolar a faca na pelle da barriga do mariola que vier mexer com a mulher delle. O allamão não se deu por achado e, com todo o semvergonhismo, me retrucou: Pois o senhor faz mal. A sua filha é muito mimosa e deveria casar com alguem da cidade.—Então, perdi a paciencia: Mochú, lhe disse, cada um manda em sua casa como entende; eu na minha, não quero ser anarchizado; elle, quando me viu fulo de raiva, pediu-me mil desculpas, contou-me muitas historias, isto, aquillo, aquillo outro, et cœtera e tal, que era para bem de minha filha e não sei mais o que, numa lingua que pouco entendi...

—Não fez bem, atalhou Cyrino.

—Boa duvida! Aquillo é uma alma damnada ... boa para as caldeiras de Pedro Botelho, um judeu ... emfim, um caçador de anicetos: está dito tudo!... Mas ainda não lhe contei o mais... Parece que hoje estava mesmo com o diabo no corpo... Metteu-se no matto perto da minha roça, onde eu trabalhava com os meus captivos, e lá fazia um barulhão a quebrar galhos e romper o cipoal como se fosse anta; de repente ouvi uma gritaria muito grande; era o tal Meyer com o camarada José Pinho a berrar como dois minhocões[105]. Corri a ver o que era e os achei muito contentes a olhar para uma barboleta grande, já fincada num páu de pita. O allamão poz-se a pular como um cabrito.

É novo, me disse elle, é novo!—Novo o que, Mochú? Este bicho, ninguem o descobriu antes de mim! É coisa minha... Entendeu? E vou botar-lhe o nome de sua filha!... Quando ouvi aquillo, fiquei tão passado, que não pude engulir o cuspo da bocca... Vejam só ... o nome de Nocencia numa bicharada!... Até parece mangação... Agora, quero saber do doutor o que devo fazer... Venho pelo menos desabafar... Não posso metter uma bala naquelle patife como bem merecia ... mas tambem é demais tel-o em casa ... é demais! Peço-lhe um conselho... Felizmente, sempre o trago arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do contrario, como mulher que é, havéra de me dar que fazer... Tambem não sei, porque é que o Manecão não chega ... só elle é quem havia de me livrar destes apuros... Uma vez que o tal allamão visse a rapariga com o noivo, deixava-a socegada... Não acha? Olhe, palavra de honra, isto ansim não é viver! Fui feito para dizer o que penso, tratar bem a todos ... mas estes modos que tenho agora, só Deus sabe quanto me custam... Até o meu serviço vae soffrendo, porque muitas vezes largo a roça e ponho-me a correr atraz dos bichinhos, só para não deixar de olho o tal marreco, em lugar de feitorar o trabalho dos negros... O meu fazendeiro é um diabo ruim e já velho... Ah! meu irmão, que carga você me pôz em cima das costas! Eu então, que não nasci para esconder o que sinto cá dentro!...

E Pereira, de tão attribulado que trazia o espirito deixou-se cahir num comoro de terra.

Cyrino, defronte delle, ficara de pé e pensativo.

Afinal, depois de breve duvida, decidiu tentar fortuna e encetar a grave questão que lhe importava a felicidade.

—Sr. Pereira, disse bastante commovido, acho que o allemão faz mal em andar batendo lingua em pessoa da sua familia, e dou razão ás suas inquietações...

—Ah! vosmecê é homem de confiança.