O moço fez signal que obedecia e sumiu-se incontinente na escuridão do pomar.
Aquella hora dava a lua de minguante alguma claridade á terra; entretanto, como que se presentia outra luz a preparar-se no céu para irradiar com subito esplendor e infundir animação e alegria á natureza adormecida. Nos galhos das laranjeiras, ouvia-se o pipilar de passaros prestes a despertar, um gorgeio intimo e aveludado de ave que cochila; e ao longe um sabiá mais madrugador desfiava melodias que o silencio harmoniosamente repercutia. Riscava-se o oriente de dubias linhas vermelhas, prenuncio mal percebivel da manhã; nos espaços pestanejavam as estrellas com brilho bastante amortecido, ao passo que fina e amarellada névoa empallecia o tenue segmento illuminado do argenteo astro.
Não era mais noite; mas ainda não era sequer a aurora.
Tão commovido se sentia Cyrino, que teve de sentar-se, emquanto esperava por Innocencia.
Esta não tardou: vinha vestida de uma saia de algodão grosseiro e, á cabeça, trazia uma grande manta da mesma fazenda cujas dobras as suas mãos prendiam junto ao corpo. Estava descalça, e a firmeza com que pisava o chão coberto de seixinhos e gravetos, mostrava que o habito lhe havia endurecido a planta dos pés, sem lhes alterar, comtudo, a primitiva elegancia e pequenez.
Parecia muito assustada, e, mau grado seu, dos olhos lhe rolavam lagrimas a fio.
O mancebo, apenas a avistou, correu-lhe ao encontro.
—Innocencia, exclamou elle notando um gesto de duvida, nada receie de mim... Heide respeita-la, como se fora uma santa... Não confia então em mim?...
—Sim! disse ella apressadamente. Por isso é que vim até cá... Entretanto, estou com a cara ardendo ... de vergonha...
E levando uma das mãos de Cyrino ás suas faces: