Ouve-se a curta distancia o ruido do rio que corre largo, claro e com rapidez.

Como duas verdes orlas reflectem-se no espelhado da superficie as elevadas margens, a cujo sopé moitas de sarandys, curvadas pelo esforço das aguas e num balancear continuo, produzem doce marulho.

Causa-nos involuntario scismar a contemplação de grande massa liquida a rolar, a rolar mansamente, tangida por força occulta.

Bem como a ondulação incessante e monotona do oceano agita a alma, assim tambem aquelle perpassar perenne, quasi silencioso, de uma corrente caudal, insensivelmente nos leva a meditar.

E quando o homem medita, torna-se triste.

Franca e espontanea é a alegria, como todo o facto repentino da natureza. A tristeza é uma vaga aspiração metaphysica, uma elação inquieta e quasi dolorosa acima da contingencia material.

Ninguem se prepara para ficar alegre. A melancolia, pelo contrario, aos poucos é que chega, como effeito de phenomenos psychologicos a encadear-se uns nos outros.

De que modo nasceu aquella enorme móle de aguas? Donde veiu? Para onde vae? Que mysterios encerra em seu seio?

Largo tempo ficou Cyrino a olhar para o rio. Em sua mente tumultuavam negros pensamentos.

Já se havia diffundido o crepusculo, e bandos folgazões de quero-queros saudavam os ultimos raios de sol e despertavam os écos em descommunal gritaria. De vez em quando, passava algum pato selvagem, batendo pesadamente as azas; sobre as aguas, adejavam garças estirando e encolhendo o niveo collo e pombas, aos centos, cruzavam de margem a margem a buscar inquietas o pouso de querencia.