Foi a luz gradativamente morrendo no céu, seguida de perto pelas sombras; e o rio tomou aspecto uniforme; como se fora immensa lamina de prata não brunida.
—Emfim, conheci o Manecão! pensava Cyrino. E para esse é que reservam a minha gentil Innocencia?!... Bonito homem para qualquer ... para mim, para ella, horrendo monstro!... E como é forte!...
Digamol-o, sem por isso amesquinhar o nosso heróe, a idéa de força no rival acabrunhava-o.
—Se eu pudesse ... esmagava-o!... E que ar sombrio e desconfiado!... Meu Deus, dae-me coragem ... dae-me esperanças... Nossa Senhora da Abbadia!... Nosso Senhor da Canna Verde ... valei-me!...
E o mancebo, deante daquella natureza acabrunhadora a quem tanto importava a paixão que lhe atenazava o peito, como o insecto a chilrar debaixo da folha de humilde herva, cahiu de joelhos, orando com fervor ou, melhor, desfiando automaticamente as preces que sua mãe lhe havia, em pequeno, ensinado.
E o rio lá se ia sereno; e uma onça ao longe urrava, ou algum passaro da noite soltava gritos de susto, esvoaçando ás tontas.
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Transpondo, na manhã seguinte, o rio Paranahyba, pisou Cyrino territorio de Minas-Geraes.
Depois de legua e meia em matta semelhante á da margem direita, abrem-se campos dobrados, um tanto crestados do sol, de aspecto pouco variado, mas abundantissimos em perdizes e codornas.
Tão preoccupado levava o moço o espirito que, nem sequer uma só vez, imitou o pio daquellas aves; distracção, a que aliás não se furta quem por lá viaja, tão instantes são os motivos de instigação.