Foi com impaciencia mais e mais crescente que percorreu as dezeseis leguas intermedias á fazenda do Padua.

Ia com o coração cheio de aprehensões e os olhos se lhe arazavam de lagrimas, de cada vez que contemplava o melancolico bority. Então pelo pensamento voava á casa de Innocencia. Tambem, alli junto ao corrego em cuja borda se déra a ultima entrevista, se erguia uma daquellas palmeiras, rainha dos sertões.

Que estaria fazendo a querida dos seus sonhos?

Que lhe aconteceria? E Manecão?! Já teria lá chegado?

Ao pensar nisto, augmentava-se-lhe a agitação e com vigor esporeava a cavalgadura.

Transformava-se para elle o caminho em dolorosa via, que numa vertiginosa carreira quizera vencer, mas que era preciso ir tragando pouso a pouso, ponto por ponto.

A magestosa impassibilidade da natureza exasperava-o.

Quando o homem soffre devéras, desejara nos raptos do allucinado orgulho, ver tudo derrocado pela furia dos temporaes, em harmonia com a tempestade que lhe vae no intimo.

—Meu Deus! murmurava Cyrino, tudo quanto me rodeia está tão alegre e é tão bello! Com tanta leveza voam os passaros: as flores são tão mimosas; os ribeirões tão claros ... tudo convida ao descanço ... só eu a padecer! Antes a morte... Quem me dera arrancar do coração este peso! esta certeza de uma desgraça immensa! Que é afinal o amor!... Daqui a annos talvez nem me lembre mais da pobre Innocencia... Estarei me atormentando á tôa... Oh não! Essa menina é a minha vida! é o meu sangue ... o meu pharol para os céus... Quem m'a rouba, mata-me de uma vez. Venha a morte ... fique ella para chorar por mim ... um dia contará como um homem soube amar!...

Levantara Cyrino a voz. De repente, deu um grande grito, como que o suffocava: