—Está bom, replicou elle, nada de precipitações. Toda a vida fui ansim... Já volto: vou ver onde pára o meu cavallo.
E sahiu, deixando Pereira entregue a encontradas supposições
Decorreram dias sem que os dois tocassem mais no assumpto que lhes moia o coração. Ambos, calmos na apparencia, viviam vida commum, visitavam as plantações, comiam juntos, caçavam, e só se separavam a hora de dormir, quando o mineiro ia para dentro e Manecão para a sala dos hospedes.
Innocencia não apparecia.
Mal sahia do quarto, pretextando recahida de sezões: entretanto, não era o seu corpo o doente, não; a sua alma, sim, essa soffria morte e paixão; e amargas lagrimas, sobretudo a noite, lhe inundavam o rosto.
—Meu Deus, exclamava ella, que será de mim? Nossa-Senhora da Guia me soccorra. Que pode uma infeliz rapariga dos sertões contra tanta desgraça? Eu vivia tão socegada n'este retiro, amparada por meu pae ... que agora tanto medo me mette... Deus do ceu, piedade, piedade.
E de joelhos, deante de tosco oratorio allumiado por esguias velas de cera, orava com fervor, balbuciando as preces que costumava recitar antes de se deitar.
Uma noite, disse ella:
—Quizera uma reza que me enchesse mais o coração ... que mais me alliviasse o peso da agonia de hoje...
E, como levada de inspiração, prostrou-se murmurando: