—Ah! queres? continuou Cyrino com voz rouquejante, não é?... Pois bem!... De noite e de dia ... minha alma há de estar contigo ... sempre, sempre!...

Calou-se por um pouco e, revolvendo-se no chão, passou a mão pela testa. Lentejava-lhe dos póros o suor frio e visguento da morte.

Foi seu rosto abandonando a expressão de rancor; a respiração tornou-se-lhe mais difficil.

—Não murmurou com pausa e gravidade, não quero morrer ... assim. Devo sair desta vida ... como christão... Hei de saber perdoar... E reunindo as forças, acrescentou com uncção e energia: Manecão ... eu te perdôo ... por Christo ... que morreu ... na cruz, para nos salvar ... eu te perdôo... Nosso Senhor tenha pena de ti... Eu te perdôo, ouviste?

Á medida que o moribundo pronunciava estas palavras, esbugalhara Manecão os olhos de horror com o corpo todo a tremer.

—Não quero o teu perdão, bradou elle a custo.

—Não importa, respondeu-lhe Cyrino com voz suave. Ele é ... dado do fundo d'alma... Cáia sobre tua cabeça...

Quero, quero morrer como christão... Que me importa agora o mundo, a vingança ... tudo?... só Innocencia!... Coitada de Innocencia... Quem sabe ... se ... ela ... não morrerá? Manecão, dá-me agua. Agua pelo amor de Deus!... Desce do cavallo, homem... É um defunto que te pede... Desce!...

E com os braços erguidos acenava para Manecão.

—Agua, bradou o mancebo forcejando por levantar-se, dá-me agua ... eu te dou a salvação...