... Ainda ha pouco tempo me disse que quizera ter nascido princeza... Eu lhe retruquei: E sabe você o que é ser princeza? Sei me secundou[49] ella com toda a clareza, é uma moça muito boa, muito bonita, que tem uma coroa de diamantes na cabeça, muitos lavrados[50] no pescoço e que manda nos homens... Fiquei meio tonto. E se o senhor visse os modos que tem com os bichinhos?!... Parece que está falando com elles e que os entende... Uma bicharia[51], em chegando ao pé de Nocencia, fica mansa que nem ovelhinha parida de fresco... Se fosse agora a contar-lhe historias dessa rapariga, seria um não acabar nunca... Entremos, que é melhor...

Quando Cyrino penetrou no quarto da filha do mineiro, era quasi noite, de maneira que, no primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pôde lobrigar, alem de diversos trastes de formas antiquadas, uma dessas camas, muito em uso no interior; altas e largas, feitas de tiras de couro engradadas. Estava encostada a um canto, e nella havia uma pessoa deitada.

Mandara Pereira accender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se ambos do leito da enferma que, achegando ao corpo e puxando para debaixo do queixo uma coberta de algodão de Minas, se encolheu toda, e se voltou para os que entravam.

Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira

—Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez.

—Boas noites, dona, saudou Cyrino.

Timida voz murmurou uma resposta, ao passo que o joven, no seu papel do medico, se sentava n'um escabello junto á cama e tomava o pulso á doente.

Caía então a luz de chapa sobre ella, illuminando-lhe o rosto, parte do collo e da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por traz da nuca.

Apezar de bastante descorada e um tanto magra, era Innocencia de belleza deslumbrante.