Como noutro logar affirmamos, ha, para[{102}] alem da sua vida de symbolo, o caso vivo, em aberto, duma real figura da qual o bohemio «um duplo», se accrescenta e desdobra, e que, a nosso ver, é, nem mais nem menos, do que o seu proprio revelador,—o Artista que, na alludida monographia, sinceramente, lugubremente, trata o caso da morte de Manuel como se a espreitasse em si proprio!

Passaremos adiante a miuda informação daquelle desenlace, ainda logico dentro da extravagante «Tragedia de um homem de genio obscuro», por ver, de relance, o Artista, ao pretexto do admiravel estudo em analyse.

De facto, qual a figura que surde para alem da mascara de Manuel?

É, affirma-lo-emos ainda uma vez, nem mais nem menos do que o Auctor, embora transfigurado da sua Arte:—isto é o artista «violento e contradictorio» que[{103}] dahi resulta; ou seja o escriptor atavicamente «presciente do raro em arte», com o mais extranho «senso pictoral de certos aspectos sociaes», de par do maior «poder amplificador dos grotescos»; o artista, a um tempo «fragmentario e dispersivo»; o transfigurador; a creatura perdida «em assumpções de genio» e logo baixada dos «fulgurantes cimos da intelligencia», como que distrahido por casos minimos; o «de filiação hysteriça e infancia convulsiva, terrivel no amor como no odio», o «mystico» e necrographo, de «vontade frouxa, com antipathias invenciveis pelos grandes fanfarrões da sociedade e escriptores lançados»—o emotivo, emfim, que no Manuel não faz mais do que esmaltar de picaresco e lugubre a sua propria figura, errando nelle o seu drama de morbido, e parabolando-lhe, nas attitudes, como na desgraça, os seus grandes pavores[{104}] da morte, de par da duvida que lhe advinha da sua mesma Obra, que, no fundo, julgava irremediavelmente episodica e fragmentaria![2]

Por isso, tambem, ao deixar o quarto, do outro, agonisante, elle põe na boca do indio, o Pratas, velho confidente dos dois, como que o echo do seu pensamento intimo:—«O ideal seria que a alma delle não morresse, e nós ainda a encontrassemos, intacta e genial, num outro mundo insubmisso»!

Ainda uma vez mais, elle formula o seu velho sonho:—não acabar! Em ultima analyse:—o seu drama em duas palavras[3].[{105}]

Finalmente nada mais haveria a escrever de commentario ao extraordinario capitulo da obra de Fialho que principalmente nos demos a desarticular ainda por compor a figura que nelle foi—se não tivessemos de incluir um tal trabalho na parte que reservamos das suas melhores provas.

Como demonstração de Arte, mal poderiamos deixar de alludir ás paginas que fecham a tragedia, em parte verdadeira, de Manuel—e que tambem, de si, são, ainda de uma precisão e valor notaveis.

De facto, velou elle o doente de duas figuras que mal apparecem no curso da acção e, no quarto do moribundo, apresenta[{106}] silenciosas,—duas esphinges de odio que o encaram e ao Pratas, o segundo companheiro de Manuel, como se fossem elles os verdadeiros culpados da sua desgraça!

A primeira é um velho, o pae do doente que, depois de lhe ter negado os recursos, tomando á conta de extravagancia todos os seus dispendios, como o seu irremissivel alcance de saude, vem assistir-lhe á morte.